Família apóia lei, mas não autorizou doação
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domingo, 11 de janeiro de 1998
Benê Bianchi Londrina 
Dorico da SilvaQuestão emocionalAlmir Vargas: apoio da família para uma decisão difícilO primeiro caso de possível doação ocorrido em Londrina após a vigência da nova lei de transplante ocorreu na sexta-feira, no Hospital Universitário, e a ética médica prevaleceu sobre a nova lei. A família da professora Rosane Vargas, 28 anos, residente em Ampére (sudoeste do Paraná) não autorizou a retirada de órgãos para transplante, embora em seus documentos não constasse sua opção por não fazer a doação. A decisão da família foi acatada pela equipe médica.
Dizer não à doação foi uma decisão difícil para o irmão de Rosane, Almir Vargas. Pessoalmente, não sou contra doação. Mas no caso da minhã irmã eu não quero doar. É uma questão emocional. Ela era a única filha. Era vaidosa e acho que ela não gostaria de doar os órgãos, explica Almir. Segundo ele, o assunto nunca foi abordado pela irmã e, portanto, a família não sabe se ela era favorável à doação de seus órgãos.
Almir conta que a morte de Rosane foi um choque para toda a família. Nós não esperávamos. No Natal cantamos, tocamos violão. Estava toda a família reunida numa grande festa.
A certeza de que a doação não deveria ser autorizada só veio mesmo após uma ligação para os pais, que também moram em Ampére. Antes de falar com minha mãe fiquei em dúvida. Mas a reação dela foi dizer que não era hora de falar nesse assunto. Ela não quis o transplante e nós acatamos, inclusive o marido da Rosane aceitou a decisão. A morte cerebral de Rosane foi constatada pela equipe médica somente no final da tarde de sexta-feira e a família manteve a decisão de não doar os órgãos dela.
Rosane Vargas era professora naquela cidade. Era casada e deixa dois filhos, um de quatro e outro de dois anos. Ela teve um problema neurólogico grave - a família não permitiu a divulgação do tipo de doença - e entrou em coma no dia 2 de janeiro. Os sintomas começaram a se manifestar há cerca de seis meses, segundo o irmão. Ela começou a se queixar de dor de cabeça e o problema foi se agravando até chegar onde chegou.
A gravidade do caso foi comunicada à família na quinta-feira. Durante dois dias, a paciente passou por todos os exames necessários para a confirmação do quadro. A família passou então a ser acompanhada, como ocorre com familiares de pacientes internados em estado grave em UTIs, e foi feita uma entrevista para que fossem detectados pontos que pudessem mostrar a intenção da família em doar ou não os órgãos.
Segundo Almir, após o comunicado de que o quadro da irmã era irreversível, o pessoal do setor de Serviço Social do hospital conversou com ele sobre a nova lei e a importância do ato de se doar órgãos. No início fiquei em dúvida e então liguei para meus pais. Não houve pressão do hospital pela doação.
Na sexta-feira pela manhã, já com a decisão de não autorizar a retirada dos órgãos, Almir Vargas preencheu o cadastro manifestando a opinião da família, mesmo sem a conclusão dos exames que poderiam detectar a morte cerebral. Nossa decisão está tomada e não será revista. A coordenadora da Central de Transplantes de Londrina, Elza de Lara Bezerra comenta que a decisão de preencher o cadastro com antecedência partiu do próprio irmão.
Segundo ele, a irmã só começou a ter dores muito fortes e vômito no dia 1º de janeiro. Foi internada no hospital de Ampére, onde passou uma noite. No dia seguinte, viajou com a família para Francisco Beltrão e teve que ser novamente internada. De lá, foi encaminhada para o Hospital Universitário de Londrina. Foi tudo muito rápido.
O surgimento e rápida evolução da doença de Rosane Vargas deixou a família bastante abalada. O irmão conta que ela sempre foi muito religiosa - tendo sido inclusive catequista -, tinha muita fé e vontade de viver. Ela era alegre, sorridente e sempre foi muito forte.


