Faltam médicos da família
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Davi Baldussi <br> <br> Reportagem Local 
Londrina - É pouco mais de 13h30 quando o Uno da Secretaria Municipal de Saúde de Londrina encosta embaixo de um pé de pêssego na casa de Sebastião e Maria do Carmo. Eles moram numa pequena propriedade de 11 mil metros quadrados, a cinco quilômetros do Distrito de Paiquerê, na Zona Sul de Londrina.
A médica Rosangela Libanori dirigiu o veículo até o local, acompanhada de uma dentista, uma enfermeira, uma fisioterapeuta e uma agente de saúde. O paciente que recebe a visita é César, 23 anos, filho mais velho do casal Sebastião e Maria.
César é deficiente mental e sofre com problemas nos dentes. Ele não gosta de médicos, muito menos de dentistas. A equipe até tenta convencê-lo, mas César recusa o atendimento. Para não perder a viagem, Rosangela decide checar a pressão dos pais de César.
Enquanto é atendido, Sebastião narra o drama do filho. ''Ele está sentindo muita dor, por isso não está comendo direito'', conta. De acordo com a médica, o paciente precisa por cirurgia para retirar alguns dentes.
O caso de César do Carmo é apenas um exemplo das dificuldades que fazem parte da rotina dos profissionais da saúde que visitam os pacientes de casa em casa. Um desafio que médicos e outros trabalhadores da área da saúde enfrentam há três décadas no Brasil. Em dezembro, a especialidade de Medicina de Família e Comunidade completou 30 anos de existência.
''É, portanto, uma das especialidades mais antigas do Brasil se considerarmos que a Comissão Nacional de Residência Médica foi instalada em 1977'', afirma o presidente da Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade (SBMFC), Gustavo Gusso, em artigo comemorativo à data publicado no site da entidade. Atuam hoje no País cerca de 1,5 mil médicos especializados em Medicina de Família e Comunidade, que atendem pelo Programa Saúde da Família (PSF).
De acordo com Sônia Maria Coutinho, que assume a coordenação do PSF em Londrina em janeiro de 2012, está cada vez mais difícil encontrar médicos dispostos a entrar no programa. ''Grande parte que está hoje é recém-formada, fica no máximo dois anos, ou são médicos que estão prestes a se aposentar'', comenta.
O médico da família e comunidade é o especialista responsável por cuidar da saúde da população com base na análise física, psicológica e do contexto social em que está inserido o paciente. Sônia participou da implantação do PSF em Londrina, em 1996. Durante mais de dez anos atendeu pacientes no Distrito de Paiquerê. Para ela, os médicos que escolhem atuar no PSF de certa forma fazem uma ''profissão de fé''. ''Não dá para comprar o carrão do ano. O objetivo é melhorar a saúde do povo'', diz. O salário inicial é de aproximadamente R$ 7 mil por 40 horas semanais.
Existem atualmente em Londrina 74 equipes do PSF, distribuídas pelos cerca de 50 postos de saúde da cidade. ''O ideal seria que fossem pelo menos cem equipes'', confessa. Segundo Sônia, cada equipe é projetada para atender até 4,5 mil pessoas e é formada por médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem e de quatro a seis agentes comunitários. ''Cada agente é responsável por cerca de 250 famílias. Por mês eles devem realizar pelo menos uma visita a cada uma e, dependendo do caso, ele comunica a enfermeira ou médico para realizar uma visita domiciliar'', explica.
Nos Distritos de Irerê, Paiquerê e Patrimônio de Guairacá (Zona Sul) só há uma médica da família, Rosângela Libanori, que fez a visita no início desta reportagem. ''Há uns três meses o médico de Irerê saiu depois que passou numa prova de residência'', conta Rosângela.
Por conta disso, de acordo com ela, as visitas domiciliares, como a da casa de César, se tornaram raras nos últimos meses. ''Estou fazendo em média 40 consultas por dia nas unidades. Às vezes a gente manda o carro até o sítio para buscar o paciente. São poucos os casos de pessoas que não conseguem vir até o posto e que realmente precisam do médico, pois as enfermeiras podem dar conta de muitos atendimentos, como uma troca de um curativo.''
Há cinco anos, Rosângela atua na região, desde pré-natal até o caso de um menino que caiu de um pé de manga. ''A gente atende a família inteira'', diz. Ela sai de segunda a sexta de Londrina por volta das 7 horas numa kombi com outros profissionais rumo aos distritos. ''Eu gosto do meu trabalho. Trabalhei durante quinze anos com serviços burocráticos. Em 2002 fiz especialização em medicina da família e comunidade e em 2007 comecei a atender'', relata.


