Paris, 17 (AE) - "Hitlers Pope" (O Papa de Hitler) é o título provocante do livro do historiador inglês, John Cornwell, que foi lançado hoje na França com um título mais suave Le Pape et.Hitler (O Papa e Hitler) (Albin Michel). Esse papa foi Pio XII (cardeal Eugênio Pacelli), que governou a Igreja desde 1939, portanto, no pior momento do nazismo, da guerra e do Holocausto dos judeus (Pio XII morreu em 1958).
A acusação contra o papa (seu silêncio a respeito do Holocausto ou, pior ainda, sua cumplicidade com a Alemanha, sua tolerância em relação a Hitler) é antiga. Mas, desta vez, assume um relevo particular: em primeiro lugar, porque foi lançado o processo de beatificação de Pio XII.
Depois, porque o autor de Hitlers Pope, John Cornwell, um católico inglês, iniciou suas pesquisas para reabilitar Pio XII, mas diz ter encontrado documentos tão importantes que seu livro é, ao contrário, muito incômodo.
Mas não se vêem muitos desses documentos no livro de Cornwell. Com certeza, há muitas coisas que "não foram ditas" por Pio XII, uma prudência extrema, mas nada que prove um consentimento com o nazismo. E as acusações de Cornwell frequentemente não são amparadas pelos documentos oficiais.
Por exemplo, Cornwell afirma que, ao falar com interlocutores alemães, Pio XII teria atenuado a virulência da Encíclica "Mit brennender Sorge" (Com ardente preocupação) de seu predecessor Pio XI contra o nazismo. Mas quem são seus interlocutores alemães? E onde estão as provas ou os indícios? É um mistério: Cornwell não diz nada.
A maior parte das acusações apresentadas por Cornwell não usa uma argumentação melhor. Sem dúvida, a parte mais sólida do processo refere-se aos "silêncios" do papa Pio XII. Sobre as atrocidades dos croatas (amigos dos nazistas), nenhuma palavra de Pio XII. Sobre o extermínio dos judeus, nada, a não ser uma alusão na mensagem de Natal de 1942. Sobre a prisão em massa em Roma, no dia 11 de outubro de 1942, sob as janelas do Vaticano, silêncio.
Como explicar estes silêncios? Pio XII ignorava o Holocausto, dizem seus defensores. Mas é difícil acreditar nisso: porventura não havia padres na Alemanha? Ou então, afirma-se que o papa tinha receio de agravar a condição dos judeus denunciando Hitler.
Cornwell propõe outra explicação. O motivo, segundo o escritor, era porque o papa, como muitos católicos de seu tempo, estava impregnado de anti-semitismo, e mesmo de antijudaismo. Mas também aqui, as provas de Cornewll são fracas, com exceção deste documento inquietante: em 1919, o cardeal Pacelli (futuro papa Pio XII) que então era núncio papal, viu apenas "judeus" nos revolucionários que se tinham tornado senhores da cidade de Munique .Uma coisa é provável: a preocupação primária do papa Pio XII durante a tragédia, era a de salvar Roma e o catolicismo.
Todos os outros deveres ficaram subordinados a esta tarefa histórica.
É por isso que Pio XII teria sempre se recusado a romper a linha "de não-intervenção" que ele havia traçado a fim de salvar o catolicismo.
Dentro desta perspectiva, a preocupação com os judeus teria sido relegada a segundo plano.
O livro de Cornwell e as réplicas que provoca por parte dos representantes da Igreja ou dos historiadores certamente irão pesar no processo de beatificação de Pio XII. Lembremos como este processo foi instaurado: em 1964-65, elevaram-se muitas vozes para pedir que o papa João XXIII fosse canonizado "por aclamação". Paulo VI, que estava então no Vaticano, recusou-se a adotar esse processo. E o fez abrindo simultaneamente um processo de beatificação de Pio XII e de João XXIII.
Segundo informações do Vaticano, a causa de João XXIII progrediu bastante nos últimos tempos. Algumas fontes sussurram que o mesmo acontece no caso de Pio XII. Seria por isso que Cornwell teria julgado necessário apresentar seus novos documentos (Mas, cumpre lembrar, não tão novos assim como ele o diz)

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