Falta tratamento para doenças cardiovasculares
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segunda-feira, 26 de julho de 2004
Lígia Formenti<br>Agência Estado 
Brasília- As doenças que mais matam no Brasil, as cardiovasculares, estão sem tratamento. Segundo o chefe da Liga de Hipertensão do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Décio Mion, menos de 20% das pessoas com hipertensão - um dos fatores de risco para enfarte e derrame cerebral - estão sob medicação.
Esse número inclui tanto pessoas que compram remédios nas farmácias quanto as que recebem medicamentos na rede básica de saúde. O Ministério da Saúde não tem o número exato de quantos doentes não estão sendo tratados de forma adequada. Mas admite que a distribuição de remédios para combater as doenças cardiovasculares é falha.
Preocupados com a situação, participantes do Comitê Nacional de Diabete e Hipertensão reuniram-se no Ministério da Saúde para discutir o problema. ''Remédio não é a única forma de controlar hipertensão e diabetes. Mas sabemos que ele é importante em boa parte dos casos'', observa Mion, que integra o Comitê. ''Com essa distribuição errática de remédios feita pelo ministério, continuamos a registrar um grande de número de mortes, que podiam ser evitadas.''
O Secretário de Atenção à Sa© úde do Ministério da Saúde, Jorge Solla, admite que o acesso da população a medicamentos contra diabetes e hipertensão é falho.
Pelos cálculos do ministério, cerca de 12 milhões de hipertensos usam o Sistema Único de Saúde (SUS). Desses, 7,7 milhões estão cadastrados na rede básica de saúde, mas apenas 2,79 milhões estão no serviço de distribuição de medicamentos.
Segundo Solla, isso não significa que todo o restante esteja sem tratamento. ''Há os que recebem remédios pelo Programa de Saúde da Família (PSF), pelos municípios e Estados'', afirmou. Em 2003 foram acompanhados no PSF 4,35 milhões de hipertensos. Mesmo assim, reconhece, há um número significativo de pessoas que não consegue trocar sua receita por um medicamento nos postos de distribuição. O secretário garantiu, porém, que o ministério está estudando fórmulas para resolver o problema.
Entre as sugestões, está a mudança da maneira de distribuir os medicamentos que integram a farmácia básica. Atualmente, esses remédios são comprados tanto pelo ministério quanto por Estados e municípios. É a chamada responsabilidade compartilhada. A idéia é que, para alguns itens (entre eles os de hipertensão e diabetes), a responsabilidade de fornecimento passe a ser exclusiva do ministério.
Estados e municípios, por sua vez, ficariam encarregados de toda a compra de alguns dos medicamentos integrantes da lista da farmácia básica. A proposta já foi apresentada pelo ministro da Saúde, Humberto Costa, mas ainda depende de aprovação de representantes dos secretários estaduais e municipais de saúde.
Segundo Solla, o ministério reservou para este ano recursos para a compra de medicamentos para 7,7 milhões de pacientes com hipertensão e 2,6 milhões de diabéticos. Isso significa um acréscimo de 54% dos gastos e de 63% no volume de medicamentos em relação a 2003.
Mion, no entanto, não esconde o ceticismo com a proposta. ''Não sei se a simples transferência de competência para compra resolve o problema. Além disso, embora tenha sido anunciada pelo governo, tal mudança não passa ainda de um plano. Há muito chão pela frente.''
Carlos Alberto Machado, também integrante do Comitê, não esconde sua insatisfação com as ações governamentais nessa área. ''O combate à hipertensão e diabete deixou de ser prioridade. Foi riscado da agenda'', avalia.
Além da falta de medicamentos, ele se queixa da qualidade dos programas de capacitação de profissionais para diagnosticar e tratar as doenças. ''Deixam muito a desejar'', avalia.
Solla discorda. Segundo ele, no ano passado foram capacitados 2.024 profissionais de saúde em todo o Brasil. Em 2001 e 2002, foram 2.075.


