Falta de tratamento marginaliza
Discriminar o dependente de drogas e não oferecer a ele tratamento adequado é armar uma bomba de pavio curto. A conta para a sociedade chega rápido e costuma ser alta, afirmam os especialistas. Só a cidade de Nova York teve um prejuízo de US$ 20 bilhões em 1997 com faltas ao trabalho, custos policiais e gastos médicos provocados pela droga. Sem falar no aumento das mortes e na violência que ameaça todos nós, afirma a neuropsiquiatra Patrizia Streparava, da Associação Paulista de Medicina e coordenadora do Projeto Phoenix, de prevenção e tratamento.
Segundo os especialistas, o tratamento é um direito do dependente e seus familiares e deve ser buscado o mais cedo possível. Serviços públicos, família se sentem culpados e optam por se refugiar na clandestinidade. Não são acolhidos em muitos serviços, se isolam dos companheiros e fogem da família. Nessa trajetória, a próxima parada será a marginalidade e a violência, como aconteceu com o ex-Polegar Rafael Ilha Alves Pereira.
O cantor, de 25 anos, foi preso no início da semana roubando R$ 1,00 e um passe escolar depois de meses perambulando e dormindo pelas ruas. Só então a gravidade de seu estado foi percebida.
Com base em estudos norte-americanos, estima-se que numa cidade como São Paulo possa existir até 50 mil dependentes de álcool e outras drogas necessitando de algum tipo de ajuda. As clínicas, comunidade e ambulatórios públicos não estariam atendendo nem 20% dessa população.
O Estado precisa se aparelhar para lidar com os dependentes , afirma Maurides Ribeiro de Melo, advogado e presidente do Conen, Conselho Estadual de Entorpecentes, de São Paulo. Chegar aos serviços de saúde já é um passo importante , afirma a médica psiquiatra Luezemir Lago, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. A política adotada pela equipe de saúde mental da secretaria privilegia os tratamentos ambulatoriais, mantendo o dependente em seu meio e em contato com familiares. Segundo a médica, as internações são necessárias apenas em casos agudos de intoxicação.
Maria Beatriz Borges, psicóloga do Proad - centro de tratamento da Universidade Federal de São Paulo -, diz que as internações são necessárias apenas em casos especiais. Acreditamos no tratamento ambulatorial, mas a participação da família é importante. Outras correntes defendem a internação por períodos que podem chegar a um ano. Esta é uma tendência cada vez mais adotada na Europa e nos EUA, afirma Patrizia Streparava.
Num meio termo, estão as comunidades que internam, mas mantêm seus portões abertos. Só fica quem quer. Existem 92 comunidades filiadas à Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas - tel. (019) 252-7919.Arquivo FolhaApeloO cantor Rafael disse durante a semana, assediado pela imprensa, que só deseja uma chance para fazer tratamentoAureliano Biancarelli
Agência Folha





