São Paulo, 9 (AE) O juro "overnight", o dólar "black" e as bolsas de valores foram alternadamente termômetros históricos de expectativas no Brasil. Mas, de três semanas para cá, o mercado perdeu todas as referências como resultado da liberação atabalhoada do câmbio e, pior, devido também às contradições que o governo FHC não consegue disfarçar agora que é sacudido pela descoberta de que no País também existe resistência ou defesa explícita de interesses, além dos federais. As contradições são mais graves, porque minam a confiança, enquanto a desordem cambial pode ser superada por iniciativas operacionais que tanto a mesa da área internacional quanto de mercado aberto do Banco Central podem tomar a qualquer momento, desde que definidas as regras das políticas de câmbio, juro e crédito interno. Neste início de semana, após revelar uma irritação ímpar com os governadores de oposição 7 entre 27
e praticamente romper o diálogo com a minoria, o governo federal espalhou num primeiro momento, e por diversos canais, a sua disposição em conversar.
Num segundo momento, o diálogo foi classificado. Assim, para ser admitido, não deveria ter agenda prefixada, como se fosse possível travar conversa aleatória com governadores recém empossados e considerados empobrecidos e descontentes. Num terceiro ato, o Presidente, com presença marcada na cerimônia de inauguração da primeira fase do gasoduto Brasil-Bolívia em Corumbá, delegou a tarefa de receber três dos sete governadores da oposição aos ministros da Fazenda, da Previdência e das Comunicações. Com uma velocidade surpreendente, os governadores também acomodaram o encontro na agenda de outro escalão, convocando secretários de Fazenda para dialogar com os ministros. Do encontro, se confirmado, dificilmente sairá algum avanço, se o resultado não for ainda mais ruído, conforma-se o mercado, que no início da noite era informado pelo porta-voz da Presidência da República a confirmação de que se o governo de Minas Gerais não honrar o resgate de US$ 100 milhões de eurobônus que vencem amanhã, a União liquidará a operação. É um consolo, mas não solução, até pela reserva em que se colocaram os principais líderes do Congresso.
O mercado, altamente especulativo há poucos dias, revelava ontem a fragilidade de um órfão sem a orientação do Banco Central e basicamente por um motivo: não confia em eventuais sinalizações técnicas ou políticas disparadas pelo governo. A retração do mercado, esboçada desde a saída de Gustavo Franco e reforçada com a súbida demissão de Francisco Lopes há uma semana
tornou-se patente a partir do comunicado conjunto divulgado pelo governo brasileiro e FMI na semana passada, e que trouxe mais dúvida do que esclarecimentos sobre a revisão do acordo de metas com a instituição. Há praticamente uma semana, o juro primário está agarrado a 39% ao ano e não inspira confiança, porque ninguém sabe se a taxa reflete um objetivo de política monetária; tampouco sabe que política monetária o governo persegue sob a tutela do FMI; e também desconhece o que pensa o presidente indicado para o Banco Central, Armínio Fraga. Dele, o mercado sabe que é exímio operador, mas o fato é que, na prática, Fraga ainda não tem função executiva e, para o mercado, a formalidade do cargo é condição necessária para formuladores e executores de políticas de governo exatamente porque o cargo é a chancela do Presidente da República para acertos ou diabruras. Nesta segunda, a bolsa brasileira disparou 4,6%. Esta valorização foi expressiva o suficiente para mais que compensar a perda nominal de 5,12% acumulada em quatro pregões consecutivos de queda na semana passada, mas ela tampouco convence porque praticamente a metade do giro de US$ 612 milhões correspondeu ao vencimento de contratos de opções e nas transações a vista não há indicação de trânsito de estrangeiros, mas basicamente de tesourarias que buscam o ganho rápido e não têm o compromisso de manter os papéis em suas posições fato que concorre e muito para a alta volatilidade dos índices. O dólar "black" perdeu seu poder de atração a circulação proibida do seu universal poder de compra há muitos anos.
Sem referências operacionais, sem um presidente efetivo no Banco Central e atolado em dúvidas, o mercado está andando às cegas e a escassez de dólar provoca uma pressão aguda e também inesperada no seu preço e, por tabela, uma desvalorização descontrolada do real. E desta vez, nem exportador faz foguetório. Em 17 dias de negócios com o câmbio livre do dia 15 de janeiro até ontem a cotação da moeda americana superou R$ 1 90 quatro vezes. A última foi ontem, vitaminada por uma alta de 4,82% que elevou a 58,85% a escalada do dólar no ano e a 37% a desvalorização do real. Atento ao rebate da desvalorização sobre os preços, o mercado aguarda para ver até onde o governo FHC e um Banco Central esvaziado conseguirão manter o sangue frio sem intervir de forma escamoteada no mercado ou assumir de vez um modelo de intervenção, com o objetivo de ajudar a moeda a encontrar seu ponto de equilíbrio. O comportamento do dólar em três semanas sugere que este "ponto" é ficção, num contexto de escassez de moeda para negociação física e/ou linhas de financiamento externas. O governo FHC pode estar cometendo um grande equívoco ao esperar que o mercado condicionado a operar sob rígidos controles e normas há mais de quatro décadas
alcance o equilíbrio. O custo do equívoco será inflação e ela, com certeza, estará camuflando outros custos possivelmente mais graves, como falta de credibilidade externa e desconfiança interna.
Quase ao mesmo tempo em que o Procon divulgava ontem a alta de 1,15% da cesta básica do paulistano em apenas dois dias, o líder do governo na Câmara, Arnaldo Madeira (PSDB-SP) afirmava desconhecer um dos temas de maior destaque neste final de semana nos principais jornais do País, que é a existência de um anteprojeto de medida provisória para mudar a Lei Kandir em favor dos Estados. Uma credenciada fonte do governo FHC, que participa das negociações com a missão técnica do FMI, afirmava à jornalista Beatriz Abreu, da Agência Estado em Brasília, que o acordo com o Fundo não prevê meta de inflação e que poderá existir uma referência flutuante para o indicador que servirá para balizamento da política monetária afirmação que contraria o que foi dito na semana passada pelo próprio governo, que insistiu na definição de uma meta inflacionária à qual estaria atrelada a política monetária. Ao ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, coube a ingrata tarefa de afirmar em entrevista coletiva que o governo desconhece a "Carta de Porto Alegre" aquele subscrita pelos sete governadores de oposição na qual manifestaram condições para negociação com o governo federal. Segundo Pimenta da Veiga, o governo está aberto para ouvir o que os governadores levarem à reunião nesta terça-feira com os ministros escalados pelo Presidente da República.

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