'Falta de responsabilidade dos dois'
Dos 6.776 bebês nascidos vivos em Londrina em 2015, 878 têm mães adolescentes. A Secretaria Municipal de Saúde não possui dados parciais de 2016. No entanto, apenas em outubro 257 garotas de 15 a 19 anos realizaram o pré-natal nas unidades básicas de saúde (UBS) de Londrina. Outras 11 meninas gestantes com idade entre 10 e 14 anos também foram atendidas.
"No começo, eu fiquei muito triste porque via as minhas amigas namorando e estudando sem ter filhos. Quando a barriga foi crescendo, eu não passava a mão na barriga. Eu não estava muito feliz; só pensava: Nossa! O que que eu fiz com a minha vida", relatou Jéssica (nome fictício). Aos 17 anos, a adolescente é mãe de uma menina de 1 ano e mora próximo à UBS do Conjunto Chefe Newton, na zona norte de Londrina. A unidade atendeu 87 adolescentes gestantes em 2015.
Jéssica teve uma gravidez tranquila, sem muitos enjoos. No início, não acreditava que pudesse estar grávida. "Não fiz teste porque eu achei que um dia eu ia voltar a menstruar. A minha mãe notou que eu estava diferente. Um dia ela foi direta e me falou: Desce lá no posto e pede um ultrassom. Quando a gente foi fazer o exame, o bebê já estava formado. Eu já estava com quatro meses. A primeira coisa que eu falei para a minha mãe é que eu não queria parar de estudar", afirmou.
Ela e o namorado moram juntos com a mãe de Jéssica. Com o apoio do namorado, da família e dos professores, a adolescente não chegou a interromper os estudos. Parte das atividades da escola foi feita em casa. "Passei na primeira fase da UEL! Quero ser veterinária", comemorou a adolescente mais habituada à ideia de ser mãe.
Na maioria dos casos, os pais não assumem a responsabilidade pelo bebê. Vanessa (nome fictício) não teve a mesma sorte de Jéssica. "É minha primeira e última (filha). Meu Deus, dá muito trabalho!", confessou. Após um envolvimento rápido com um rapaz do trabalho, ela engravidou aos 19 anos e só descobriu quase cinco meses depois. Os planos mudaram e a família foi tomada pelo susto. "Meu pai falava que se isso acontecesse comigo, ele ia me expulsar de casa. Eu não sabia como contar", disse. Aos poucos, a ilusão de ter o companheiro ao lado foi deixada para trás. Os pais de Vanessa acolheram a filha e a neta. A jovem pretende retomar os estudos em 2017.
O diálogo sempre existiu entre mãe e filha, o que deixou a mãe de Vanessa ainda mais perplexa. "Como ela não contou para mim, se ela sempre teve essa porta aberta?", refletiu a mãe. "Quando a gente olha a situação toda, ainda bem que é uma criança. E se fosse uma doença? Mesmo assim, eu não passei a mão na cabeça. Foi uma falta de responsabilidade dos dois e foi muito difícil passar por tudo isso. Eu surtei. A responsabilidade, na verdade, ficou toda para ela. Aqui sempre existiu diálogo, mas em outras famílias nem sempre é assim. As mães não ensinam os filhos homens a assumirem o papel de pai", lamentou a mãe de Vanessa.
A coordenadora do programa Saúde da Mulher da Secretaria Municipal de Saúde, Priscila Alexandra Colmiran, informou que as equipes buscam fortalecer os trabalhos de forma integrada com parcerias com as secretarias de Educação e Assistência Social. "A gente tem feito também um trabalho para identificar unidades com maior número de adolescentes para fazer ações diferenciadas", explicou. Além da questão cultural (algumas meninas desejam engravidar mais cedo por se perceberem apenas como futuras mães), muitas adolescentes seguem atrás de um companheiro para suprir a carência afetiva na família ou para deixar a realidade em que vivem. (V.C.)





