São Paulo, 13 (AE) - Aumento de preços e falta de produtos no mercado interno estão levando empresários consumidores de resinas plásticas a pedir a intervenção do governo. Querem reduzir a tarifa de importação, de preferência a zero por cento. Desde já, o governo recusa. Cláudio Considera, da Secretaria de Acompanhamento Econômico, diz que a resina produzida no Brasil é suficiente e que a mudança da alíquota implica complexa negociação com os parceiros do Mercosul. A escassez de matéria-prima já atinge os segmentos de tubos e conexões, dos eletroeletrônicos (linhas branca e marrom) e de embalagens.
A indústria de transformados plásticos, que já estava pressionada por reajustes de 50% a 90% nos preços das resinas termoplásticas, este ano, agora enfrenta um fato novo: a falta das matérias-primas no mercado interno. Conforme a lei da oferta e da procura, esses ingredientes são o fermento da inflação. E a escassez não se deve a um aquecimento sazonal, como seria o caso dos tubos e conexões - cuja alta nos preços do produto final ao consumidor, prevista para janeiro, poderá chegar a 20%, se os produtores tiverem de apelar às importações. Há também reclamações dos segmentos de linhas branca e marrom e de embalagens - estas, têm aumento de preços de 10% a 15%, previsto para o início do ano.
Alíquota - "Se faltarem resinas, o governo deverá agir, com algum tipo de controle", diz o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), Merheg Cachum. Para saber exatamente o que, quanto e onde há escassez de matérias-primas, a Abiplast distribuiu, ontem (12), uma pesquisa sobre o assunto entre seus associados. Com a certeza de que a falta já é uma realidade, a Abiplast enviou carta ao governo, na quarta-feira (10), pedindo a redução da alíquota de importação, hoje, em 17%. "O ideal é que ela seja zero", avisa Cachum.
Segundo o secretário de Acompanhamento Econômico, Claudio Considera, a carta ainda não chegou às suas mãos - foram enviadas cópias inclusive aos ministros da Fazenda, do Desenvolvimento e de Minas e Energia. "As centrais petroquímicas têm condições de abastecer o mercado interno, por isso acho difícil que esteja faltando", avalia Considera.
"A Polibrasil, que produz 550 t/dia de polipropileno, teve quebra na fábrica e está parada há duas semanas, e a Petroquímica Triunfo, com problema no compressor, deverá ficar parada durante dois a três meses", demonstra o presidente da Associação Brasileira de Embalagem (Abre), Sergio Haberfeld. Claudio Considera esclarece que a redução da alíquota de importação está atrelada a lista de exceção do Mercosul. Ou seja
qualquer medida dessa natureza deve ser submetida à análise dos sócios do bloco, e as resoluções não são imediatas.
"A entrada da ásia como forte compradora no mercado internacional é outro fator de desabastecimento no Brasil", afirma Haberfeld, também presidente da Organização Mundial de Embalagem. Os preços lá fora, informa a Abiplast, são um atrativo para que a indústria de resinas exporte. A Abiplast não informa a cotação das resinas no exterior.
Segundo o mercado, o preço varia muito, tanto no Brasil quanto lá fora, dependendo da quantidade e das condições de compra. Mesmo assim, a OPP Petroquímica está cancelando parte de suas vendas externas para não prejudicar o mercado interno, informa o presidente da Abre.
Segmentos - Sergio Haberfeld relaciona as faltas em alguns segmentos: de 10% a 15% do poliestireno (PS) usado na indústria de eletroeletrônicos (linhas branca e marrom), e na de descartáveis e embalagens de alimentos; o polipropileno (PP) para embalagens rígidas, está com cotação em alta e as exportações são aquecidas pela grande demanda mundial; e o polietileno de baixa densidade (PEBD), para embalagens flexíveis
principalmente de alimentos, cuja produção é prejudicada por paradas anunciadas pela indústria brasileira - caso da Petroquímica Triunfo, cuja capacidade anual é de 150 mil toneladas.
No segmento de tubos e conexões, a redução da disponibilidade de PVC pelas empresas se faz notar há três semanas. A capacidade instalada de 690 mil t/ano da Solvay e da Trikem, únicas produtoras brasileiras da resina, está deixando o segmento de transformação a desejar de 10% a 30% das matérias-primas de que necessita. A Fortilit, que transforma cerca de 10 mil t/mês (240 mil t/ano), tem sentido a falta de 5% a 10% do fornecimento. A boa notícia é que a fábrica da Solvay, com capacidade instalada para 210 mil t/ano, no Pólo de Baía Blanca, na Argentina, consolida em dezembro a produção iniciada este mês.
Estoques - Além da sazonalidade do segmento, que trabalha a todo vapor de setembro a novembro para abastecer a construção civil a partir de janeiro - temporada de chuvas faz com que a parte interna da obra seja feita -, este ano se somou outro fato. "No exterior, os consumidores de PVC estão formando estoques, porque poderá faltar resina no próximo ano, por causa da escassez do MVC em todo o mundo", observa o presidente da Fortilit, Erich Casanova. O MVC é a mistura do eteno (derivado da nafta) com o cloro, para a produção do PVC.
"Nosso custo de internação da resina, contando frete, impostos e taxas, chega a 35%", explica ele, justificando a impossibilidade de trazer o produto de fora. Este ano, a Fortilit crescerá 76% - porque colocou em funcionamento sua fábrica de Sumaré -, e a Akros, também da multinacional Amanco, mais ou menos 15%. O que poderá garantir o abastecimento da construção civil e até protelar o aumento dos preços, estima José Ney Alves Maia, gerente Administrativo da Ind. e Com. Majestic, outra produtora de tubos e conexões, é que o segmento está bastante estocado de produto acabado. "A oferta no atacado e no varejo ainda estão acima do consumo", calcula ele.
"Se o governo baixar a alíquota de importação, será apenas uma forma de ameaçar as indústrias de resinas", prevê Sergio Haberfeld. A indústria de resinas brasileira, recém-expandida, tem capacidade nominal de 4,5 milhões de toneladas ao ano. Se a estimativa de crescimento do PIB a taxa de 4%, anunciada pelo governo, se realizar no próximo ano, a indústria de transformados vai repassar custos mais rapidamente do que se o País estivesse na recessão do início do ano.
"O governo deve deixar o mercado livre. Se a inflação voltar, que subam os juros. Com eles vem a recessão e, consequência disso, a dimunição do consumo", analisa Haberfeld. A solução definitiva, mesmo, é a que todos já sabem. "Estabilidade, só depois das reformas", repete ele, fazendo coro a todo o empresariado nacional.

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