Falta de professores prejudica alunos da USP; alguns correm o risco de não se formar
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sábado, 08 de abril de 2000
Por Marta Avancini 
São Paulo, 09 (AE) - Por causa da falta de professores, alunos de graduação de história e geografia da Universidade de São Paulo (USP) estão correndo o risco de não se formar no prazo previsto para os cursos. Desde 1994, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), à qual os dois departamentos estão ligados, perdeu 80 docentes, chegando ao fim de 1998 com 339 professores em seu quadro de funcionários.
A relação entre a falta de docentes e a dificuldade de os estudantes graduarem-se é simples: como o número de professores é insuficiente para cobrir todas as disciplinas previstas no currículo, os departamentos deixam de oferecer matérias optativas e, desse modo, os estudantes não obtêm créditos suficientes para concluir seus estudos no prazo estabelecido. O problema afeta os que estão no fim do curso, pois as optativas se concentram nessa fase da formação. Na geografia, das 46 disciplinas previstas no currículo, 21 estão sem professor. Na história, o déficit de professores levou a direção do curso a suspender a oferta de optativas neste semestre.
Para operar com um mínimo de condições didático-pedagógicas, a faculdade precisaria contratar, imediatamente, entre 25 e 30 profissionais, segundo cálculo da própria direção da instituição. "Temos a pior relação professor/aluno de toda a USP, perto de 33 estudantes para cada professor, enquanto a média da universidade é de aproximadamente 13 para 1", diz Francis Henrik Aubert, diretor da FFLCH/USP. O efeito prático é a dificuldade de os estudantes conseguirem vaga numa disciplina.
Lúcia Gomes, aluna do quinto ano de história, pretendia matricular-se em pelo menos duas optativas do seu curso para completar, até o fim do ano, os sete créditos de que precisa para se graduar. "Como não está sendo oferecida nenhuma optativa, tive de me inscrever em uma disciplina da Letras, que conta apenas dois créditos", conta. "Vai ser difícil me formar no fim do ano".
Aposentados - O elevado número de aposentadorias nos últimos anos é a principal causa da falta de professor em algumas unidades da USP. No fim de 1998, a universidade contava com 4.677 professores, número 16,4% menor que em 1989. "Perdemos muitos professores, que deixaram a universidade com medo de perder benefícios na época em que se estava discutindo alterações na legislação previdenciária", explica Adolfo Melfi, presidente da Comissão de Claros, um grupo que estuda políticas para reposição dos aposentados.
Entre as 35 unidades da USP, a FFLCH é o caso mais crítico, avalia ele. "Eles perderam vários docentes porque havia muitas mulheres, que se aposentam antes dos homens. Ainda existe o problema da idade média, que é elevada na FFLCH". Metade dos professores da unidade tem 50 anos ou mais. Temporários - Embora o caso da FFLCH seja extremo, a falta de professor é um problema que afeta outras unidades da USP. Para contornar a situação, a universidade tem contratado educadores em regimes alternativos - não por concurso, como é de praxe -, apenas para dar aulas. É o caso da Escola de Comunicações e Artes (ECA), que tem contratado professores exclusivamente para ministrar determinados cursos, muitos deles obrigatórios.
"Eles não têm vínculo com a instituição. São professores que ganham por aula, não desenvolvem pesquisa, nem se envolvem com a instituição. Muitos aceitam essas condições na expectativa de ganhar experiência e ingressar na USP, depois, por concurso", explica Jair Borin, chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP. Por 12 horas de aula ao mês, eles recebem R$ 260. (Colaborou Cristina Charão)


