Uma pomadinha para quem tem tumor maligno. Quimioterapia para quem não tem câncer. Entre as doenças complexas mais comuns, o câncer anda confundindo médicos. O motivo: despreparo do profissional. O pior é que nem sempre são tipos raros da doença. A confusão ronda até casos de câncer de mama, o mais comum entre as brasileiras. O resultado é diagnóstico errado que atrasa o começo do tratamento.

Pesquisa do Hospital do Câncer A. C. Camargo mostra que, em média, há uma lacuna de seis meses entre os primeiros sintomas e o diagnóstico. ''Nesse período, o tumor pode mudar de estágio, tornando-se maior e mais disseminado'', explica Daniel Deheinzelin, diretor clínico do Hospital do Câncer. Quanto mais desenvolvido for o tumor, menores as chances de cura. Segundo Deheinzelin, cada mudança de estágio do tumor pode diminuir em 20% as possibilidades de cura.

Dois anos. Foi o tempo que levou até que Anna Amélia de Oliveira, de 45 anos, descobrisse estar com câncer de mama. O nódulo no seio esquerdo foi detectado pelo ginecologista. Sem pedir exames para investigar o que tinha encontrado, o médico se limitou a indicar massagens no seio durante o banho e aplicação de compressas de água quente. ''Não é qualquer médico, trata-se de conceituado ginecologista de um centro de referência'', enfatiza Anna.

Insegura com a conduta do ginecologista, Anna acabou fazendo exame de mamografia por conta própria. O resultado deu que estava tudo normal. Ao retornar ao ginecologista, foi atendida por seu assistente, que reforçou a indicação das compressas.

Mais um ano e Anna repetiu a mamografia: apesar de confuso, o laudo também indicava normalidade. Foi quando ela decidiu procurar outro médico. ''Ao me examinar e tocar o nódulo, o médico mudou de fisionomia'', lembra Anna. Ele analisou as duas mamografias anteriores, reclamou da qualidade delas e pediu uma terceira. O novo exame constatou a suspeita do médico: Anna tinha mesmo câncer de mama. ''Fui operada para retirar o tumor em julho do ano passado; perdi parte da mama.'' Anna reuniu toda a documentação sobre sua saga e se prepara para entrar na Justiça contra o renomado ginecologista que atrasou o diagnóstico.

Tânia (nome fictício), de 38 anos, passou por história semelhante e já está com processo na Justiça contra a ginecologista que a atendeu. Ao notar um caroço no seio direito, correu para o médico. Sem saber, Tânia tinha um tumor de mama de 10 centímetros de diâmetro. ''Isso não é nada. É problema hormonal'', concluiu a ginecologista, que se limitou a olhar a mama de Tânia, sem apalpá-la. Além de pedir exames de ultra-som, a médica receitou uma pomada. De posse dos exames, fez o diagnóstico: nenhum problema no seio, apenas alguns cistos no ovário. ''Perguntei a ela se era grave'', conta Tânia. ''Para mim, só câncer é grave'', respondeu a médica.

O estado de Tânia piorou: a mama doía cada vez mais, além de eliminar secreção. Os dois sintomas tinham sido relatados para a ginecologista. Tânia decidiu procurar uma segunda opinião médica. ''Fui ao Instituto Brasileiro de Controle do Câncer.'' Depois de repetir os exames, veio o diagnóstico: câncer de mama. Em março do ano passado, Tânia se submeteu a cirurgia de retirada total da mama direita.

Segundo Antonieta Kulaif, presidente da Associação das Vítimas de Erros Médicos, casos como o de Tânia e Anna Amélia são comuns.

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