Falta de investimentos provoca colapso no IML de São Paulo
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sábado, 01 de maio de 1999
Por Renato Lombardi 
São Paulo, 02 (AE) - A falta de dinheiro, de pessoal e de equipamentos têm provocado um verdadeiro colapso no recolhimento e na liberação de corpos e laudos pelo Instituto Médico-Legal (IML) de São Paulo. Os corpos de vítimas de assassinatos e acidentes de trânsito chegam a ficar por horas seguidas no meio da rua, sobre a maca dos pronto-socorros ou no necrotério dos hospitais à espera do "rabecão", o carro de recolhimento de cadáveres.
A situação, quase caótica, não está apenas na capital. Os postos do instituto em quatro cidades do interior - Sorocaba, Presidente Prudente, Campinas e Taubaté - enfrentam os mesmos problemas.
A Secretaria da Segurança Pública do Estado promete pôr em prática em pouco tempo um plano para melhorar a qualidade no atendimento, reformular e modernizar o IML. A frota deve ser totalmente renovada. "As pessoas que recorrem ao IML não podem ser vítimas duas vezes", afirma o secretário Marco Vinício Petrelluzzi.
Ele resolveu acompanhar de perto a situação do IML depois das denúncias feitas pelos meios de comunicação sobre o atraso no recolhimento dos corpos, que, num fim de semana, chegou a quase 23 horas. Uma sindicância está apurando as responsabilidades no caso, para saber se houve negligência por parte da diretoria do instituto.
No mês passado, a não-retirada dos corpos de três jovens vítimas de acidente e de assassinato revoltou pais, tios, irmãos e amigos. Arlindo dos Santos Barreiro, de 18 anos, baleado às 23 horas do dia 9 de abril, uma sexta-feira, na Rodovia Raposo Tavares, morreu no Hospital Campo Limpo horas depois. O corpo foi levado para o IML somente no começo da noite de domingo, dia 11.
No Morumbi, na zona sul, Bruno Ramos Pagliarini e Hugo Quadros Heitor Mendonça, ambos de 17 anos, morreram em acidente de carro na Avenida Giovani Gronchi, na noite de 10 de abril. Por falta de carros do IML, os corpos ficaram por quase 12 horas na rua. Para resolver o problema, as famílias alugaram a ambulância de um hospital para o transporte até um necrotério da zona oeste.
Naquele fim de semana, também pela falta de carros, dezenas de corpos foram transportados pelo Serviço Funerário Municipal e pelos carros do Corpo de Bombeiros. "O IML não se moderniza", diz o médico-legista Antônio Aurélio de Carvalho Monteiro, que trabalha há 15 anos no instituto e é presidente da Associação dos Médicos-Legistas do Estado de São Paulo. "Os carros da frota foram comprados na Argentina, as peças foram fabricadas nos Estados Unidos e, quando os veículos quebram, não conseguem rodar mais por falta de peças."
Independência - A falta de estrutura do IML, segundo Monteiro, é grande "Quando uma faca usada nas autópsias quebra, o funcionário tira dinheiro do próprio bolso para comprar outra porque a adquirida pelo Estado é de péssima qualidade." Não se investe no IML há muitos anos. "O regime (militar) não tinha interesse em apurar os crimes e, por isso, esqueceu o instituto", comenta Monteiro.
Em fevereiro do ano passado, apareceram os primeiros sinais de mudança. O IML e o Instituto de Criminalística (IC), que eram subordinados à Polícia Civil, ganharam independência. Antes, delegados mandavam nos peritos e nos legistas e eram os responsáveis pela liberação de recursos para a compra de todo o material.
Com a criação da Superintendência da Polícia Técnico-Científica, que completa um ano, os dois setores esperam tornar-se modernos. O superintendente, Celso Perioli, fala diretamente com o secretário da Segurança Pública. O que ficou ainda com a Polícia Civil é a manutenção dos carros e o fornecimento do combustível.
Atraso - Monteiro afirmou que o IML não tem material moderno para colher digitais e examinar cadáveres. Existe apenas um operador de raio X. Ele trabalha somente quatro horas, por causa da exposição aos raios. Quando sai em férias, o serviço praticamente pára. "Autópsia sem raio X não é autópsia", diz Monteiro.
A maior dificuldade para a contratação de operadores é o salário. A secretaria da Segurança Pública paga R$ 250,00 por mês. Perioli explicou que, em 1989, o instituto tinha 12 operadores de raio X. Desde 1994, existe apenas um. Para contornar a situação, ele pediu a abertura de concurso para auxiliar de enfermagem e pretendia aproveitar os profissionais no raio X. "Não apareceu ninguém."
O presidente da Associação dos Médicos-Legistas diz que, se algumas vezes o atendimento não é bom e ocorre atraso na entrega dos laudos ou na liberação dos corpos, não é pela falta de legistas. Em todo o Estado são 565 profissionais, número considerado por ele "suficiente".
Faltam pessoal administrativo e de segundo escalão. O déficit chega a mil funcionários. Em todos os postos da capital, dezenas de servidores estão fora de função. Atendentes de autópsia datilografam laudos e recebem pessoas que procuram informações para a liberação dos corpos ou de pessoas desaparecidas. "Estamos sempre quebrando o galho", queixa-se Monteiro.


