Falta de humanização aflige usuários do SUS
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quinta-feira, 28 de outubro de 2004
Alan Maschio<br>Reportagem Local 
Na manhã de ontem, o operador de máquinas Ernesto Janz esperava por atendimento para a esposa, Eurides Janz, na porta do Pronto-Socorro do Hospital Universitário (HU) há pelo menos 12 horas. Alérgica a um medicamento, Eurides não reclamava do tratamento que recebia dos médicos, mas sim da demora para ser atendida. ''Depois que a gente entra, fica tudo bem. O problema é justamente esse: entrar'', explicou, enquanto coçavas as marcas na pele, causadas pela alergia.
Eurides faz parte de uma estatística curiosa, levantada pelo Ministério da Saúde no ano passado: apesar de problemas como a superlotação, falta de recursos e de capacitação profissional enfrentados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), 70% dos usuários acham que o maior problema se encontra em questões relacionais a forma como são atendidos ou a espera nas filas, por exemplo.
Problemas como este foram debatidos no 1º Seminário de Humanização do Norte do Paraná, que tem como tema ''A Humanização e o Acolhimento na Gestão de Saúde''. Promovido pelos hospitais Universitário, Santa Casa, Zona Norte, Zona Sul, Cismepar, Secretaria Municipal de Saúde e Ministério, o seminário discutiu alternativas para a solução destes problemas.
O médico Adail Almeida Rollo, superintendente do Hospital Municipal Mário Gatti, de Campinas, no interior de São Paulo, foi um dos palestrantes. Consultor da Política Nacional de Humanização do Ministério, ele detalhou os problemas apontados pela pesquisa do ministério. ''Não há mais relação de proximidade entre o médico e o paciente, e o atendimento é dirigido à doença, e não à pessoa. Acredito que isso seja uma das causas para a demora no atendimento nos hospitais'', disse.
A ênfase exagerada à técnica, a falta de capacitação humanizada e a supervalorização de tecnologias são apontadas pelo médico como agentes do atendimento frio, pouco humanizado. ''São fatores decorrentes do contexto, em que a competitividade e individualidade são levadas mais a sério do que o trabalho'', explicou.
Propostas de incentivo ao atendimento humanizado foram colocadas ontem no seminário pelo próprio médico, que aplica no hospital campineiro recursos como o acolhimento por classificação de risco. ''A burocracia do atendimento de quem chega primeiro foi trocada pela avaliação da gravidade dos casos dos pacientes. Depois de uma primeira triagem, os pacientes são encaminhados às salas identificadas por cores, de acordo com a gravidade do problema. Isso agiliza o atendimento e diminui a tensão no hospital, que é normalmente um lugar de ansiedade'', explicou.
Segundo Rollo, o Ministério da Saúde já passou a exigir de novos hospitais de ensino e pesquisa a fixação de normas de humanização no atendimento, além de incentivar eventos, como o seminário do HU, para disseminar o conceito. ''São todas medidas que não exigem investimentos vultosos. Na prática, depende apenas de mudança de comportamento'', disse.


