São Paulo, 19 (AE) - A dependência das empresas brasileiras de recursos do BNDES para financiamento de projetos é o principal entrave para a criação de multinacionais brasileiras. Hoje o banco dispõe de R$ 20 bilhões para atender todo o setor produtivo brasileiro, valor bem abaixo das necessidades, que são de R$ 32 bilhões, segundo a direção do banco.
Especialistas ouvidos pela AGÊNCIA ESTADO afirmam que a expansão das empresas nacionais além das fronteiras do País é fundamental para ampliar a participação do País no comércio mundial, hoje restrito a 0,9% do total movimentado, e atrair mais dólares. Isso porque os programas oficiais de estímulo às exportações não são suficientes para incrementar a participação do País no comércio mundial, já que nossos produtos ainda são competitivos para concorrer nos mercados internacionais.
"O País precisa de multinacionais. Entre outros benefícios elas reduzem os problemas de logística que tanto atrapalham nossas vendas", afirma Virene Roxo Matesco, coordenadora de projetos do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da FGV-RJ. Na avaliação de Virene, o empresário brasileiro, que já tem capacidade mais do que suficiente para se lançar no Exterior, só não o faz por falta de capital.
Além do BNDES, a outra opção dos empresários para captar recursos seria o mercado de capitais. Entretanto, a alta concentração dos negócios em bolsa nos papéis de algumas grandes companhias (como as teles e a Petrobras) dificulta a capitalização das empresas, segundo o diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp, Roberto Faldini. "É preciso fortalecer o mercado de capitais no País", defende o empresário, que considera a Bovespa importante dentro da América Latina, mas ainda bastante fraca quando comparada com bolsas norte-americanas e européias.
O volume de recursos para financiar a criação de subsidiárias de empresas brasileiras no Exterior pode variar entre R$ 9 milhões e US$ 18 milhões para uma empresa pequena e chegar a dezenas de milhões de dólares, no caso de grandes companhias. "Como o sistema bancário financia sobretudo empréstimos de curto prazo, a única forma de obter recursos de longo prazo é o BNDES", afirma Faldini.
A captação de recursos no mercado internacional de capitais poderia ser uma outra alternativa, mas são muito poucas as empresas brasileiras com acesso aos financiamentos internacionais. "É preciso muita credibilidade para captar no Exterior", afirma Faldini. Apesar de fazer parte da nona economia mundial, com um PIB de cerca de R$ 1 trilhão, o empresário brasileiro tem de lidar com o paradoxo de ter uma moeda interna fraca e depender de recursos externos para financiar seu desenvolvimento, já que a poupança interna é drenada para financiar o déficit público. "Diante disso, e apoiado por uma política de substituição de importações, nenhum empresário quis se aventurar no Exterior", explica Faldini.
O diretor presidente da Santista Têxtil, Herbert Schmid, complementa. "O empresário brasileiro tem pouco conhecimento dos mercados externos, sobretudo Europa e ásia. Falta à maioria das empresas uma estrutura gerencial forte, com conhecimento externo".
Apesar do cenário ainda incerto, a estabilidade econômica deve impulsionar a criação de multinacionais. Empresas de maior porte, como Sadia, Gerdau e Alpargatas-Santista, já conseguiram ultrapassar as fronteiras brasileiras. Enquanto a grande maioria continua a depender do BNDES, a estratégia de formar alianças estratégicas pode ser a terceira via. A Santista Têxtil, por exemplo, estuda a formação de parceria com empresa norte-americana do setor para, derrubando as barreiras do Nafta, adquirir companhia no México e, a partir dali, exportar tanto para os Estados Unidos quanto para a Europa. O México possui uma das indústrias têxteis mais competitivas do mundo, além de forte inserção nos mercados internacionais.

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