São Paulo, 28 (AE) - Para muitas mulheres pobres que precisam trabalhar e não têm onde deixar os filhos, a falta de vagas na pré-escola é encarada mais como um empecilho para conseguir emprego do que um fator de atraso na vida escolar. Sem alternativa, elas começam a revezar com as vizinhas a "função de professora". Foi assim que Waldenice Xavier de Souza, de 29 anos, sem o 1.º grau completo, passou a ensinar cerca 30 crianças na sala de sua casa, no Jardim Querelux, periferia da zona leste de São Paulo: "As crianças ficavam o dia inteiro na rua", diz ela."
O material escolar foi doado e as crianças deveriam contribuir com R$ 5,00 para repor o que fosse faltando. "Só umas duas crianças pagavam e, mesmo assim, não era sempre", lembra Waldenice. A escola foi durante boa parte do ano passado a única alternativa para as vizinhas de Waldenice em Querelux (vila de Ermelino Matarazo), um lugar onde não há uma única rua asfaltada e tem como principal via de acesso a passarela da estação de trem do bairro.
As aulas na sala - único cômodo da casa - só foram interrompidas quando o marido de Waldenice conseguiu juntar dinheiro para ampliar o barraco da família e começar a construir um casinha de alvenaria: "Fiquei com medo que alguma criança se ferisse na obra", explica o marido.
Pelas regras do Ministério da Educação, as pré-escolas do País - onde estudam oficialmente 4,9 milhões de crianças - devem estimular o desenvolvimento social e afetivo dos alunos. Além disso, esses locais precisam cumprir regras em relação à proporção professor/aluno e ter instalações adequadas.
Longe da burocracia do MEC, a falta de vagas em Ermelino Matarazzo fez com que centenas de pessoas passassem o fim de semana na porta da Escola Municipal de Educação (Emei) Rodrigo Soares Jr. Isso porque, na segunda-feira, o colégio abriu algumas vagas para pré-escola.
Censo - Antônio Luiz Marchioni, o Padre Ticão, está coordenando um censo infantil no bairro para saber exatamente quantas crianças entre 4 e 6 anos precisarão de vagas na pré-escola no ano que vem. Ticão acredita que chegará a cerca de 15 mil em todas as vilas. "As mães me contam que os filhos que não vão para a pré-escola entram na 1.ª série com a mãozinha dura", diz Ticão. A relação será entregue ao Secretário da Educação, João Gualberto Menezes, no dia 13.
Sônia Rodrigues, uma das mães que passou o fim de semana na fila, conta que a filha, Adriana, de 5 anos, está matriculada em uma pré-escola particular. Custo mensal: R$ 30,00. Quando ela e o marido, o coletor de lixo, Antônio de Jesus, começaram a ampliar a casa da família, a mensalidade pesou e a menina foi tirada da escola. "A Adriana não se conformou: chorava e queria passar o dia desenhando. Sabe o que aconteceu? Paramos a reforma e ela voltou a estudar", conta Sônia.
O secretário João Gualberto informou que se o Estado ceder um terreno no bairro, será construída uma pré-escola emergencial.

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