Falta de equipamentos e despreparo da polícia atrasam as investigações
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sábado, 20 de março de 1999
Edson Luiz Agência Estado 
Se a polícia de Goiás tivesse um equipamento para confecção de retrato falado, certamente teria avançado nas investigações sobre o sequestro do compositor Wellignton José Camargo, irmão da dupla Zezé di Camargo e Luciano. Para fazer o retrato falado da mulher suspeita de pertencer a um suposto grupo de sequestradores, e que teria deixado um bilhete na porta de um clube, a Secretaria de Segurança Pública levou dois dias, por falta de um kit de feições femininas.
Por falhas desta natureza, é que o sequestro já tinha se arrastado por mais de 90 dias, ontem. Se tivesse o kit, que foi comprado às pressas em São Paulo por US$ 5 mil, o retrato falado da suspeita já teria sido distribuído e divulgado pela imprensa. No próprio retrato, a polícia demonstrou outra inabilidade: colocou o nome da única testemunha do caso, um vigia de um posto da Companhia Telefônica de Goiás.
Nosso Grupo Anti-Sequestro (GAS) é o mais preparado do Brasil, mas não tem estrutura, diz o secretário de Segurança Pública de Goiás, Demóstenes Xavier Torres. Segundo ele, não há equipamentos de escuta, faltava material operacional, que foram emprestados pela Polícia Federal. Por isso, de nada adiantou os 120 homens colocados no caso, há mais de 90 dias. É o sequestro mais longo de Goiás, diz Torres.
Durante o período do sequestro, a polícia checou em torno de 1.300 informações. Chegamos a ir ao Pará, diz o secretário, revelando que muitas pessoas ligam diariamente para o GAS para passar trotes, já que não há formas de filtragem das ligações. Isso seria uma missão da PF, encarregada da parte de inteligência e negociação do sequestro. Entretanto, pouca coisa tem sido feita.
Um exemplo foi a operação desastrada realizada em Abadiânia, no interior de Goiás. Antes da chegada do grupo de policiais, já haviam jornalistas no local. Era uma pista praticamente certa, lamenta o secretário. Mas antes de investigar o cativeiro, um repórter do programa Leão Livre (Record) já estava noticiando o fato, acrescentando, erradamente, que havia mortos. O vazamento de informações também colocou a vida de Wellington em risco. Houve uma fabricação de notícias, afirmou Torres.
Outra falha nas investigações foi o manuseio do pacote onde estava um pedaço da orelha de Wellington, na semana passada. Muitas pessoas pegaram no pacote, dificultando a realização de exames. Além disso, durante a apuração do caso, o delegado Marcos Martins Machado, um dos maiores especialistas em sequestro no País, foi afastado do GAS e assumiu o cargo de secretário-executivo de Segurança Pública. Para seu lugar, foi nomeado o delegado José Pinheiro, que não tem experiência na área.
Todos os 19 sequestros ocorridos nos últimos anos em Goiás foram resolvidos, mas o de Wellington Camargo colocou em prova a qualidade do trabalho dos grupos anti-sequestros na região. Pelos métodos utilizados pelo bando, Demóstenes Torres acredita que sejam de outros Estados, mas com ligações em Goiânia. Checamos todos os sequestradores que já agiram por aqui, e não encontramos semelhança, diz o secretário. Isso, aliado à falta de preparo na PF nestes tipos de casos, transformaram o sequestro do irmão de Zezé di Camargo e Luciano em um dos mais longos do País.


