Falta de doadores ameaça Banco de Olhos do Rio
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domingo, 28 de novembro de 1999
Por Adriana Ferreira 
Rio, 28 (AE) - A queda drástica no número de doações de córneas e a falta de contribuições de grupos privados ameaçam o Banco de Olhos do Rio de Janeiro. De acordo com a diretoria da instituição, ela pode até fechar suas portas.
O declínio nas doações começou há quase dois anos, quando o banco recebia uma média de 25 doações mensais. Em outubro deste ano, foram registradas apenas quatro. A lista de espera já chega a 1.200 pacientes.
O serviço foi criado há seis anos e é administrado e sustentado pela Sociedade Brasileira de Oftalmologia. Segundo seu diretor-médico, o oftalmologista Eduardo Laboissiere, o declínio de doações teve início justamente na época em que houve uma discussão pública sobre a lei compulsória de doação de órgãos. "As pessoas ficaram assustadas e começaram a recuar."
A crise agravou-se após o episódio envolvendo o auxiliar de enfermagem Edson Isidoro, em maio deste ano. Ele confessou ter assassinado três pacientes e é suspeito de ter matado vários outros, utilizando injeções de cloreto de potássio. Foi comprovado que ele matava para favorecer funerárias, mas também foi levantada a hipótese de que participava do tráfico de órgãos.
Repercussão - Na época, o Banco de Olhos tinha um agente de captação no local onde Isidoro trabalhava - o Hospital Salgado Filho, no Méier. "Se o esquema existia, não tínhamos conhecimento", afirma Laboissiere. As consequências, porém, foram inevitáveis: hoje, o Banco de Olhos não tem mais agente atuando no Hospital Salgado Filho. Pior: assustados com a repercussão da história do auxiliar de enfermagem, diretores de outros hospitais fecharam as portas à instituição. "Só montamos nossos serviços após sermos autorizados pelos diretores dos hospitais", conta. "E hoje não estamos com agente em lugar nenhum."
Na tentativa de reverter a situação, Laboissiere está buscando apoio do governo do Estado. Mais do que uma ajuda financeira, que já está sendo analisada na Secretaria de Estado da Saúde, ele gostaria que o governo esclarecesse os diretores de hospitais sobre a atuação dos agentes de captação. "Eles são fundamentais para conseguirmos o aumento de doações", explica o médico. "São pessoas especialmente preparadas, que trabalham uniformizadas e com crachá de identificação."
Conscientizar a população, por meio de campanhas, seria outra forma de o governo contribuir, segundo o diretor do Banco de Olhos. "É necessário mudar o conceito de que doar órgãos é a mesma coisa que traficar." Laboissiere diz ser contra qualquer tipo de imposição. Para ele, sempre é necessário consultar a família. "Mesmo com documento assinado pelo doador, nós conversamos com a família e, se alguém não concorda, não retiramos o globo ocular."


