Campo Mourão – Ao passar pela cidade de Campo Mourão (Noroeste), a reportagem da FOLHA iniciou o percurso na Estrada da Boiadeira. Depois de poucos metros percorridos, uma placa avisa: "A 33 Km – Final da rodovia asfaltada". A partir dali, todo o trecho é de pista simples, mas de pavimentação conservada. Porém, sem qualquer aviso ou sinalização, repentinamente, o asfalto acaba, antes mesmo da quilometragem anunciada. Começa, então, o trecho de terra, o qual, segundo moradores dos distritos ao redor, foi acrescentado cascalho há apenas 15 dias.
Para que a água não acumule na pista, grandes covas foram feitas no acostamento, para receber a chuva. A oscilação da pista – com grandes lombadas - também é contante, fazendo que o veículo chacoalhe bastante. "Você precisa ver como é isso aqui em dias de chuva; só passa com jeep ou trator. Já passei muito sufoco nesse percurso anos atrás quando fabricava queijo e linguiça e tinha que transportar a mercadoria", diz o comerciante José Gomes da Silva. Assim como ele, em dias de sol, muitos se arriscam com carros particulares, já que transporte coletivo, passa apenas uma vez na semana. Mas, pela facilidade, motos são as mais escolhidas para pequenos percursos.
Logo à frente, moradores de um dos distritos no caminho, Cuaraitava, comentam que pedidos de ajuda são constantes. "Muitos caminhoneiros que não conhecem a região pegam essa estrada, pois no mapa diz que é asfaltada. Não é raro que os veículos fiquem atolados por dias no barro. Chegou a ter fila de caminhão atolado", diz Valdomir Quirino. Ele, que já foi motorista de um ônibus escolar, conta que, várias vezes, deixou de levar alunos pelas condições da estrada. "Não podia arriscar a vida das crianças. Tinha dias em que nem saía", revela.
Dias estes que o estudante de 17 anos, Gabriel Acácio Moraes, sabe bem como são. Ele que acaba de concluir o ensino médio, lembra que foi com muito sacrifício que conseguiu terminar os estudos. "Teve épocas em que cheguei a ficar mais 15 de dias sem ir à escola. Quero, agora, fazer faculdade. Mas, para isso, vou ter que mudar de cidade; ir e voltar todos os dias por essa estrada não tem como.

Pequenos agricultores


Se a rotina diária das comunidades no entorno da estrada é prejudicada, quem precisa passar por ela para escoar produtos sofre duplamente. Produtor de mandioca, Antonio de Oliveira diz que já ficou com o caminhão carregado por dias à espera de clima melhor. Para não perder toda a colheita, por várias vezes, contratou um serviço de tratorista para puxar o caminhão por causa da lama. "Cada hora custa, em média, R$ 70. Se considerar que eu posso ganhar, no máximo, R$ 300 por carga de mandioca, praticamente pago para trabalhar."
Na propriedade ao lado, o casal Gilmara e Marcio de Oliveira sonham com a conclusão da estrada e poder, então, iniciar planos de expandir os negócios. "Paramos de plantar maracujá, porque se não conseguíssemos transportar com rapidez, estragava tudo. Com a estrada, poderemos criar frango também", cita o agricultor.

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