Falta alma à União Européia Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 16 (AE) - A Comissão de Bruxelas acaba de explodir. Não se trata de uma simples notícia: essa comissão é o poder Executivo da União Européia. Em outras palavras, a Europa não tem mais piloto.
Esse descarrilamento cai mal: o lançamento do euro (moeda única) em janeiro tinha sido bom. Mas, em seguida, a política agrícola comum entra em pane, a Alemanha reclama uma redução da enorme contribuição que ela dá ao orçamento europeu, em Bonn, o homem forte do governo socialista, Oskar Lafontaine, é demitido brutalmente, Paris e Bonn, a dupla abençoada que arrasta a Europa há 40 anos se torna uma dupla desafiante, amarga, a dois passos de se transformar numa dupla maldita. E o euro, tão agitado em janeiro, torna-se cada vez mais calmo.
Lá no alto, a comissão, desonrada pela corrupção, pelos erros e pela fraude, é acusada pelo Parlamento Europeu depois de ser examinada pelos sábios e obrigada a dissolver-se.
Evidentemente, todos os comentários enfatizam as fraquezas de um ou de outro membro da comissão: a mediocridade de seu presidente, Jacques Santer, a desenvoltura de um ou de outro comissário (sobretudo a francesa Edith Cresson, antiga primeira-ministra de Mitterrand cuja vaidade e incompetência chegavam perto do ridículo).
No entanto, se a comissão foi derrubada, não foi por causa de Cresson ou de Santer. Foi exatamente por causa de si mesma: essa colcha de retalhos aplicada na Europa, constituída por pessoas que não falam a mesma língua, pessoas separadas pela história e pela cultura é um veículo que funciona aos trancos. Por exemplo, os Países Baixos detestam os franceses, que também são detestados pelos ingleses.
Vão dizer que o problema era o mesmo ontem e, no entanto, a comissão funcionava bem. Mas o clima mudou: a União Européia, que foi formada por 6 membros e depois por 12, conta hoje com 15 países, tão diferentes quanto a Suécia e a Espanha. É um instrumento que se tornou muito pesado e Santer não teve força para a conduzir.
Durante 40 anos, o entendimento entre a França e a Alemanha insuflava sua energia na atrelagem pesada. Bastava que os dois grandes estivessem de acordo para que todos obedecessem estritamente. Esse entendimento desapareceu, desde que Paris e Bonn são dirigidos por governos socialistas. Resultado: privada dessa espinha dorsal, a Europa curva-se em todos os sentidos.
A Europa sofre também de um paradoxo: está submetida à influência de todos os povos da Europa e também a uma estrutura hiperatrofiada. Na verdade, ela não é tão rica para cumprir todas as tarefas que lhe atribuem. Consequentemente, há uma tentação de concluir mal, de dar soluções provisórias.
Assim, essa comissão foi usada precocemente: ainda jovem (o que são 40 anos considerando a escala da história?), ela já tem um organismo de idoso e o gosto de ser ranzinza, de disputar com seus vizinhos, de ter sempre razão.
Inútil dizer que essa trombose que surgiu essa noite satisfaz os desejos de todos os antieuropeus, daqueles que preconizam há anos que um dia ou outro, semelhante desastre aconteceria. E isso, a alguns dias de uma reunião de cúpula importante da Europa, em Berlim, nos dias 24 e 25 de março, e a alguns meses das eleições que devem renovar o Parlamento europeu, até agora negligenciado, mas que a queda da comissão deverá estimular.
As maiorias continuam pró-européias e se consolam dizendo: "há males que vêm para o bem!". Bruxelas deverá purgar-se de seus miasmas, enfrentar seus próprios abismos. Aceitamos o presságio. Todavia, tememos que o entusiasmo fique por muito tempo fora do jogo e a futura Europa seja simplesmente uma estrutura sem muita alma.





