Buenos Aires, 19 (AE) - Devalorização, corrida aos bancos, renúncia do ministro da Economia Roque Fernández e toda sua equipe. Esse pacote de preocupantes rumores somente provocou pânico fora da Argentina. Dentro do país houve tranquilidade, apesar de uma queda de 5% no início da tarde na Bolsa de Valores
que depois recuperou-se para uma queda 2,8% e que acabou fechando em 4,30%. Fontes do Ministério da Economia disseram à Agência Estado que o rumor iniciou-se no Brasil e depois se espalhou para outros países latino-americanos. Os canais de TV, as estações de rádio e as edições vespertinas dos jornais portenhos ignoraram o clima de tensão que ocorria nos países da região.
"Um grande banco do Brasil disse que a Argentina estava saindo da conversibilidade", disseram as fontes. Outros rumores na city financeira sustentavam que os boatos teriam começado dentro do próprio ministério da Fazenda em Brasília. Segundo asessores do ministro Roque Fernandéz, "tudo fica como está". De acordo com eles, "Ninguém renuncia, nem haverá desvalorização".
Aos rumores iniciados no Brasil somou-se o impacto causado no exterior por uma entrevista publicada pelo Financial Times, onde o ex-ministro da Economia, Domingo Cavallo, afirmava que a Argentina teria que deixar o peso flutuar, abandonando a conversibilidade. Cavallo desmentiu enfaticamente o conteúdo da reportagem, e declarou nesta quarta-feira à tarde que o jornal britânico não o entendeu, além de afirmar que o país não sairia da conversibilidade agora.
Na semana passada, rumores sobre a renúncia de Fernández já haviam tido pouca repercussão tanto na imprensa argentina como no ambiente financeiro. Por esse motivo, os rumores desta quarta-feira já não estavam convencendo os principais bancos do país, que mantiveram-se tranquilos.
Analistas consideraram que os rumores no Brasil podem ter sido estimulados pelas declarações de Fernández na terça-feira de que "não vejo forma de que um ataque especulativo possa ter sucesso contra o peso. Quando houve o ataque na época do Tequila
as possibilidades de sucesso foram muito mais altas. Hoje em dia, essa probabilidade é de 0%". Neste caso, os analistas suspeitam que ocorreu o clássico caso de que surge desconfiança quando alguém diz que determinado fato não vai acontecer.
Ao longo das duas últimas semanas, Roque Fernández foi criticado pelo ajuste orçamentário que realizou. O ajuste causou protestos de grande parte do gabinete, e provocou a renúncia, na semana passada, da ministra da Educação. Além disso, a redução orçamentária provocou protestos dos governadores de províncias, que reuniram-se na terça-feira à noite com Fernández, para tentar chegar a um acordo e impedir o corte de US$ 360 milhões. A reunião foi tensa, e sem resultados, o que gerou incertezas sobre a sustentação política do governo, que se apóia básicamente nos governadores.
No entanto, Fernández e os governadores chegaram a um acordo em uma nova reunião com os governadores na quarta-feira ao meio-dia. O ministro Fernández concordou em reprogramar o orçamento para as províncias. Fernández aproveitou para declarar que o déficit não superará US$ 5,1 bilhões, como estava pactado com o FMI. Em nome dos governadores do partido do governo, o Partido Justicialista (mais conhecido como "peronista"), o governador de Corrientes, Jorge Busti, disse que estavam satisfeitos com o acordo.
"Foi tudo um efeito do dizem que dizem..." foi a frase utilizada pelo operador da Bolsa Luis Corsiglia para explicar a paranóia surgida nos mercados dos países vizinhos sobre uma hipotética saída da conversibilidade. Corsiglia sustentou que "a queda na bolsa argentina e também nas outras bolsas sul-americanas começou pela consequência lógica do anúncio da alta das taxas de juros nos EUA. Depois, a queda continuou crescendo pelo efeito do rumor brasileiro".
Segundo Corsiglia, "os rumores também agravaram-se pela discussão entre o governo e as províncias sobre o ajuste orçamentário. Elas não querem fazê-lo. Enquanto que no Brasil o Itamar Franco não queria pagar as dívidas, aqui, as províncias não querem reduzir seus gastos, já que estamos em um ano eleitoral, e precisam das verbas para manter suas promessas. No entanto, conseguiu-se um acordo. Temos que esperar que o dia passe para que tudo se tranquilize".

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