Falsificação atinge US$ 15 bilhões no Brasil
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de março de 1999
Por Vladimir Goitia 
Itu, SP, 25 (AE) - A falsificação se transformou na terceira maior preocupação da Interpol latino-americana, das polícias federais dos países do Mercosul e das indústrias da região. Essa fraude perde, em termos de volume de recursos e em prejuízos para a sociedade e para os governos, apenas para o tráfico de drogas e para a lavagem de dinheiro.
De acordo com a Associação de Combate à Falsificação (ABCF), cerca de US$ 900 bilhões em produtos falsos giram pelo mundo a cada ano. Essa cifra não inclui a pirataria ou violação de direitos autorais, que também causa perdas volumosas em termos de arrecadação tributária. Do total das falsificações, 70% são provenientes dos países asiáticos, segundo a ABCF.
O presidente da entidade, Fernado Ramazzini, informou que o volume de falsificações no Brasil vem crescendo a cada ano e hoje já soma US$ 15 bilhões. Autopeças, confecções e cigarros, por exemplo, lideram a lista de itens mais reproduzidos ilegalmente no País. "Esses produtos são praticamente depejados em nossos países", disse Ramazzini.
A preocupação sobre perdas e danos em decorrência da falsificação ou reprodução ilegal é tão grande que os Estados Unidos já pensam em "culpar" os fabricantes por não proteger devidamente os seus produtos comercializados. Em relação à pirataria, o volume de perdas é quase incalculável. Só a pirataria de programas de computador custa aos fabricantes de softwares em todo o mundo cerca de US$ 11 bilhões por ano.
Um estudo realizado pelo Business Software Alliance (BSA), entidade privada dedicada à defesa dos direitos autorais, mostra que de cada US$ 100 gastos em softwares na América Latina
US$ 68 vão parar nas mãos dos "piratas". Na Bolívia, por exemplo, nove em cada dez programas de computador são piratas, afirma o estudo da BSA.
Mas a falsificação e a pirataria não se restringem apenas a cigarros, confecções, autopeças ou softwares. Elas englobam passaportes, moedas, selos fiscais, documentos, certidões, livros, produtos fonográficos (CDs, fitas cassetes, vídeos), remédios, perfumes, café, chá, relógios e uma interminável lista de produtos.
Só no mês passado, 10 mil pílulas falsas do Viagra foram apreendidas no Vietnã. Em Hong Kong, 3 milhões de CDs pirateados foram destruídos no ano passado. No Brasil, segundo o presidente da ABCF, de cada 10 CDs comercializados oito já são piratas. A falsificação de reais também faz parte da lista interminável das Polícias Federais e da Interpol. Só no ano passado, foram recolhidas cerca de 160 mil cédulas falsas no Brasil.
O número de laudos concluídos sobre falsificação na Polícia Federal de São Paulo são assustadores. Em 1995, por exemplo, era de 75. No ano passado, pulou para cerca de 1.000 laudos. Os falsificadores brasileiros não pouparam nem o Instituto Brasileiro de Combate ao Câncer (IBCC). Antes de optar por métodos de segurança, o IBCC perdia 30% da arrecadação por causa da falsificação de seus produtos voltados para a campanha contra o câncer.
Estes exemplos foram apresentados a mais de 80 diretores e delegados das polícias federais do Brasil, Argentina, Chile e Uruguai e a superintendentes da Interpol desses países durante a 2ª Integração Policial no Mercosul, organizada pela ABCF e pelas superintendências regionais da Polícia Federal no Paraná e em São Paulo. O evento foi realizado hoje em Itu, no Interior de São Paulo.
"Se não reduzirmos ao máximo a falsificação e a pirataria, não será possível aumentar a arrecadação tributária, o número de empregos e o lucro das empresas", alertou Michel Giordani, presidente da Papel Salto, única indústria do Brasil de papéis de segurança. Ramazzini lembrou, no entanto, que crises econômicas fazem, em qualquer país, aumentar esse tipo de fraudes.
O estudo da Business Software Alliance mostra ainda que a pirataria e a falsificação nem sempre atingem o consumidor comum mas também as empresas que oferecem serviços utilizando produtos pelos quais se paga custos bem mais baixos. "É inaceitável que os grandes conglomerados industriais não se preocupem em proteger seus produtos com segurança que, muitas vezes, tem custo reduzido", disse o presidente da Papel Salto, controlada pela Votorantim Celulose e Papel e pela multinacional européia Arjo Wiggins Appleton. Para Giordani, as empresas deveriam, no mínimo, informar os consumidores sobre como proteger-se contra a falsificação e a pirataria.


