RIO - Um descuido na limpeza nos dutos e tanques do Laboratório Cristália, em Campinas (SP), responsável pela fabricação do anestésico Neocaína, pode ter contribuido para a contaminação do medicamento, suspeito de ter causado 50 casos de meningite química no Paraná, São Paulo, Rio, Rio Grande do Sul e Piauí. A hipótese foi aventada ontem pelo diretor do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) da Fundação Oswaldo Cruz, Félix Rosemberg.
‘‘É possível que apenas a cabeça dos lotes analisados, os primeiros frascos, tenham sido contaminados por outros produtos fabricados pelo laboratório, mas não temos como controlar isso, porque as embalagens não são numeradas’’, disse Rosemberg. Só a partir de uma profunda investigação epidemiólogica, segundo ele, será possível descobrir onde foram parar esses primeiros frascos da linha de produção.
Rosemberg anunciou ontem que as cerca de 600 amostras de Neocaína, enviadas pela Vigilância Sanitária de São Paulo após inspeção no laboratório, foram consideradas satisfatórios em todos os ensaios realizados. É possível que o material tenha que ser submetido a exames específicos complementares na França ou Estados Unidos.
Ontem, Rosemberg se reuniu com a coordenadora de Medicamentos da Vigilância Sanitário de São Paulo, Emiko Fukuda, o diretor da Vigilância Sanitária do Paraná, Celso Rúbio, e o representante do Ministério Público paranaense, o promotor de Justiça Marco Antônio Teixeira, para discutir o assunto. Teixeira tentará um um acordo com os diretores do laboratório paulista para manter os lotes de Neocaína fabricados antes de agosto de 1996.
‘‘Apesar dos resultados, não podemos garantir que os lotes não tenham frascos com contaminante químico’’, disse Rosemberg. O INCQS analisou amostras de 12 lotes provenientes do estoque da fábrica em São Paulo, onde os técnicos fizeram inspeção entre 26 e 28 de novembro. As amostras de outros 15 lotes do Paraná ainda serão analisadas. Em cada apreensão, foram separados três invólucros - uma para a análise, outro para a contra-prova (eventual contestação da indústria) e o terceiro para se dirimir dúvidas. Além dos exames farmacopéicos, o INCQS fez testes em ratos, nos quais foram ministradas anestesias.

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