As três explosões na maior plataforma de petróleo da Petrobras, que deixaram dez trabalhadores mortos, pode ter ocorrido por uma falha de montagem. Segundo um ex-presidente da Petrobras, pelas características do acidente, que ocorreu fora da área de processamento de óleo, de madrugada (quando não há operação) e com explosões sucessivas, é provável que algum item tenha passado despercebido durante o período de quatro meses de inspeção antes do início da operação. Deve ter sido uma falha boba, mas com conseqüências desastrosas como estas que estão ocorrendo, comentou o ex-presidente, que pediu para não ser identificado.
  Segundo ele, este acidente é típico de equipamentos com menos de cinco anos de uso, cuja vistoria não teve o rigor necessário. A P-36 estava operando há apenas 11 meses. É a mais nova plataforma em operação em Campos e originalmente era destinada ao campo de Marlin Sul. Seu destino foi modificado quando a Petrobras descobriu uma reserva gigantesca de petróleo no campo de Roncador que, na verdade, é uma espécie de rabicho de Marlin. A aceleração da produção no novo campo facilitaria a obtenção das metas de aumento da produção e até da auto-suficiência em petróleo até 2005.
  Um técnico da Petrobras que participou da equipe de engenheiros que acompanhou a obra da P-36 garante que o equipamento era absolutamente seguro, apesar das adaptações que sofreu para extrair petróleo a uma profundidade superior à inicial. Pelo projeto inicial, a plataforma iria operar numa lâmina dágua de até 500 metros. Com a modificação, tornou-se capaz de retirar petróleo a uma profundidade de 1.360 metros.
  Segundo este técnico, acidentes como o da última quinta-feira são imprevisíveis. Podem ocorrer em qualquer outra plataforma de petróleo, comentou. Isso transforma a Bacia de Campos, onde operam (sem contar a P-36) 71 plataformas - 41 de produção e 30 de perfuração - num barril de pólvora flutuante, como define o presidente do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense, Fernando Carvalho.
  O gerente-geral da Petrobras na Bacia de Campos, Carlos Eduardo Bellot, reconhece que os trabalhadores embarcados nas plataformas estão expostos a um risco excessivo e permanente. Trabalha-se com gás e óleo em altíssimas condições de temperatura e pressão e, portanto, com muito risco. Cabe a nós mitigar este risco, afirma.
  Não é isso o que tem sido constatado na Petrobras. De janeiro de 1998 até agora, 46 trabalhadores morreram na Bacia de Campos. Na média aritmética isto representa uma morte a cada 25 dias, um índice assustador. A maior parte das vítimas era prestadora de serviços de empresas contratadas pela Petrobras e, pelos dados registrados em 1998 e 1999, a maior causa de morte foi politraumatismo, ou seja, trabalhadores vítimas de quedas ou golpeados por equipamentos que estavam sendo manipulados. Cada plataforma de produção é um colosso de aço com altura equivalente a prédios de mais de 30 andares e peso entre 25 mil e 40 mil toneladas.
  Ao mesmo tempo em que apresentou lucro recorde, no ano passado, de R$ 10 bilhões, um resultado nunca visto nos 46 anos de existência da companhia, a Petrobras tem apresentado, nos últimos anos, um histórico de acidentes também sem precedentes. A gestão da empresa tem sido focada basicamente no resultado financeiro, o que é um erro numa empresa de petróleo, diz o ex-presidente da empresa. Seria leviano dizer que, em função disso, a direção da empresa esteja negligenciando da questão ambiental e de segurança. Não é isso. Mas catástrofes deste porte acabam com a imagem de uma empresa.
  Daí analistas como Patrícia Bueno-Keams estarem revendo suas projeções para a estatal e já se fala até que a Petrobras pode inclusive adiar a emissão de lote de US$ 300 milhões de bônus no exterior. A companhia já havia anunciado que nos próximos 18 meses iria lançar US$ 1,8 bilhão em bônus.

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