No começo eram as emoções da juventude, o embalo das utopias e o universo das contradições entre a realidade e a fantasia que modelavam os nossos corações de estudantes. As colunas helênicas do portal da nossa Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, as fascinantes passagens do Direito Romano, narradas com circunspeção e estilo elegante do professor Cartaxo; as lições de Direito Civil, transmitidas com sabedoria e dedicação pelo professor Altino; o namoro com o Direito Penal, que vinha através da condição humana e das ruas mostradas pelo professor Ildefonso; o envolvimento com a morte e a vida, o amor e o ódio, os santos e os demônios que brotavam das aulas de Medicina Legal quando o professor Napoleão, seu pai, encantava-nos com os mistérios do suicídio e do sexo (‘‘Ah! Doutores, como as mulheres francesas sabem fazer da maquiagem um ato preparatório. E vão ao encontro da morte sem violência ou sangue; parece que elas estão dormindo profundamente com o gás venenoso que deixaram escapar da cozinha e que, devagarinho, chega ao quarto onde elas esperam em seus vestidos de noiva para casar com Deus’’); e que dizer das aulas de moral e civismo quando o mestre Raul Gomes inflamava o ambiente da aula com seus discursos sediciosos produzindo na alma dos moços a euforia com a liberdade da palavra e a paixão pela ética na política?
Pois era naqueles corredores, naquelas salas e naquele pátio da faculdade que você, João Régis Fassbender Teixeira, também vivia intensamente o processo revitalizante dos conceitos e das dúvidas acerca do homem, do mundo e da vida. Jamais você negou o riso da ironia e a gargalhada da lucidez para reprovar a ignorância e o despotismo das idéias ou das pessoas. Por outro lado, você nunca deixou de ser circunspecto com as questões graves de nosso tempo. Por vezes, uma espécie de ira santa envolvia suas palavras, levantava seus braços, abria suas mãos e armava os seus dedos em gestos que recortavam a vida e a paixão das idéias e dos debates.
Mais tarde vieram os anos empolgantes do jornalismo e da advocacia. A redação e a tribuna, principalmente a tribuna do júri, eram os vasos comunicantes da experiência que você vivia e sabia transmitir com o vigor da escrita e a eloquência da voz. Depois, o sucesso na conquista dos degraus da carreira universitária; o disputado e laureado concurso para professor do Direito do Trabalho, ciência e glória de sua profissão de advogado e de sua missão de mestre. A família, o escritório, as viagens, a representação brasileira na Organização Internacional do Trabalho, os livros.
Antes e acima de tudo, a resistência como vocação e a irreverência como virtude. Era assim e sempre que você enfrentava os muitos desafios em sua ‘‘trincheira de velho advogado’’, como se auto-referiu em uma de suas obras, e desmistificava totens e tabus nos artigos publicados na Gazeta do Povo e em tantos outros jornais. A leitura de seus textos compensava a ausência de nossos caminhos cruzados ou paralelos, pois cada um lutava ao seu modo e em seu território. Também lembro os cartões de fim de ano que você mandava para o meu escritório, transcrevendo Saint Exupéry quando fala, através do ‘‘Petit Prince’’, mais ou menos assim: ‘‘Você é responsável por tudo de bom que cativa’’.
Quando fomos acompanhá-lo em sua viagem final, em Curitiba, eu pensei nisso tudo e quis falar muitas coisas que me vêem à lembrança. Talvez, se tivéssemos nos visitado e conversado com mais frequência, poderíamos pôr em dia alguns tantos assuntos. No entanto, mesmo na distância eu sentia a sua alma resistente e via a sua imagem alegre. Você cultivou sempre o bom provérbio inglês: ‘‘Devemos fazer conhecidas as nossas alegrias e manter ocultas as nossas tristezas’’.
Uma demonstração disso ocorreu pela manhã, quando a Regina estava em casa, organizando algumas coisas para o seu trânsito e encontrou, sem ter procurado, entre papéis soltos e objetos dispersos, um de seus escritos. Poderia ser alguma anotação de passagem bíblica, como aquela do Livro de Josué: ‘‘Eis que me vou hoje pelo caminho de todos’’. (Cap. 23, ver. 14). Mas não era nenhuma despedida. Era um texto onde você, justamente, fala da luta pela vida e da resistência pelas idéias.
Foi um providencial achado posto pelo pai presente e pelo amigo que nunca faltou.
* René Ariel Dotti é advogado e professor universitário em Curitiba

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