Faep antecipa que agricultura enfrentará muitos problemas
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sexta-feira, 01 de janeiro de 1999
Vânia Casado Curitiba 
A Federação da Agricultura do Paraná (Faep) está pessimista em relação ao desempenho do setor agropecuário para 1999. O presidente da entidade, Ágide Meneguette, prevê uma situação dramática e diz que o pior está por vir. Ele afirma que o setor já vem sofrendo com a política de juros altos do governo e com a falta de recursos para financiar o plantio. Meneguette antecipa sérias dificuldades a partir de março do ano que vem, quando começa a comercialização da safra 98/99.
Para Meneguette, a competição internacional estará muito mais acirrada em 99, com a recomposição dos estoques mundiais de grãos e também porque os preços dos produtos agrícolas estarão mais baixos. Para agravar a situação, a demanda caiu em função da crise asiática e russa, que reduziu a compra de alimentos. De outro lado, como as importações estão livres, há uma defasagem cambial e não há recursos para bancar a comercialização.Com isso, os grandes exportadores virão disputar também o nosso mercado interno em condições melhores que o nosso produtor, afirma.
O presidente da Faep não acredita em ganhos para nenhum produto isolado na próxima safra. Está difícil neste momento comparar a performance de cada um, diz. Segundo ele, para driblar a oscilação de preços, é preciso conhecer bem o mercado. O produtor precisa aprender a produzir com o olho no futuro e não no passado, verificando as tendências de preços e volumes de produção.
A reversão do quadro de dificuldades depende de boa vontade do governo com o setor e custaria muito pouco, resume o presidente da Faep. Isso porque os produtores querem apenas condições para competir em temos de igualdade, argumenta. Ele relacionou algumas providências que o governo poderia adotar para ajudar a agricultura. Para compensar a defasagem cambial, o governo deveria impor uma valorização alfandegária nos produtos importados, como a taxação compensatória nas importações subsidiadas, regra permitida pela OMC (Organização Mundial do Comércio). E deveria ainda proibir as triangulações, via Mercosul, de leite em pó e trigo. Outra medida séria que poderia dar condições de competitividade aos produtores seria a reforma tributária isentando os produtores da agropecuária em geral, a redução do custo Brasil e a melhoria da infra-estrutura.
A Faep vai continuar pressionando o governo para conseguir essas mudanças. Meneguette diz que a entidade pretende recorrer aos deputados ruralistas no Congresso Nacional, embora saiba de antemão que está difícil influenciar qualquer decisão porque o governo tem má vontade com o setor. Se o governo se convencesse que o desenvolvimento da agropecuária pode desencadear o crescimento econômico do País a um custo muito barato, daria o apoio que necessitamos, salienta. Para isso, diz, basta verificar o saldo líquido comercial do setor, que foi de US$ 8,5 bilhões em 1997.
Apesar das dificuldades decorrentes da política econômica, Meneguette admite que a tecnologia está avançando nos vários setores da agropecuária, em função da concorrência. Alguns produtores tratam de modernizar rapidamente a sua produção e não esperam o governo para isso. Com o tempo, o sucesso de alguns funciona como efeito demonstração. Mas até lá muitos terão sucumbido, acredita. A modernização é uma autodefesa, que às vezes também não dá certo, ressalva. Muitos dos produtores endividados foram obrigados a adquirir máquinas e equipamentos para poderem sobreviver neste regime de concorrência desigual e hoje pagam pela ousadia, com débitos bancários impagáveis.
Ágide Meneguette lamenta o péssimo desempenho do governo nas negociações internacionais que envolvem a agropecuária e atribuiu esta situação à falta de participação das entidades representativas dos produtores rurais. Na implantação do Mercosul, os produtores ficaram à margem das negociações e deu no que deu: perdemos no trigo, no leite, no algodão e não ganhamos nem no café e no açúcar, onde indiscutivelmente somos os melhores produtores do mundo, diz.
Para ele, a lição foi boa: Hoje o setor está aprendendo como se negocia. Por isso há um acompanhamento permanente, através da Confederação Nacional da Agricultura e da própria Faep, que procura se colocar e influir nas decisões de comércio internacional sempre que pode. A discussão da implantação da Alca - o livre mercado para todas as Américas no ano 2005 - precisa ser acompanhada de perto, com muito cuidado, para não haver prejuízos, como houve com o Mercosul. Estamos atentos, afirma.


