São Paulo, 23 (AE) - Pela primeira vez, publicamente, a direção da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) admitiu, na manhã de hoje, que a morte do calouro Edison Tsung-Chi Hsueh, de 22 anos, pode não ter sido um acidente. Além disso, já havia sido constatado que houve "excessos" por parte de um grupo de veteranos, durante o churrasco de confraternização dos alunos. O ato, porém, não teria ligação direta com o afogamento do estudante.
As informações foram dadas pelo diretor da faculdade, Irineu Tadeu Velasco, que divulgou hoje o resultado parcial da sindicância interna que apura o caso do estudante. "Por causa das evidências, como o óculos no fundo da piscina, é pouco provável que a morte do estudante tenha sido um acidente", disse Velasco. Segundo ele, um outro fato que precisa ser esclarecido é que não houve espancamento ou briga durante a festa, pois o calouro não apresentava hematomas, segundo o laudo do Instituto Médico-Legal.
"Essa informação, porém, não afasta a hipótese de homicídio durante a comemoração dos estudantes", ressaltou Velasco. "Agora, resta à polícia esclarecer o que realmente ocorreu no churrasco realizado no primeiro dia de aula". Abusos - De acordo com o diretor da faculdade, os abusos cometidos por alguns veteranos, conforme apurou a comissão de sindicância interna, não estão relacionados apenas com agressão. "Mas, também, com insultos e constrangimentos", afirmou Velasco. "A comissão já tem sete nomes de alunos que estariam ligados a exageros, mas nenhum deles teria ligação direta com a morte do calouro".
A direção da faculdade pretende criar na próxima semana uma nova comissão que vai estudar apenas os casos dos alunos que tiveram seus nomes ligados a abusos. "Podem aparecer novos nomes, com o passar dos dias", afirmou o diretor. "Se for confirmado que houve exageros, os alunos serão punidos administrativamente, com advertências, ou, dependendo do caso, com a expulsão". Ele garantiu, ainda, que a sindicância interna irá continuar até que o caso seja resolvido. Segundo Velasco, os alunos envolvidos nos trotes violentos iriam ser punidos mesmo que o calouro não tivesse morrido, pois abusos são são admitidos na faculdade. Alunos - Nas rodinhas de alunos, nos corredores do prédio da Faculdade de Medicina da USP, é quase impossível não se ouvir falar no nome de Edison. Hoje, dois meses após sua morte, não foi diferente. Os alunos ainda faziam comentários sobre como estava o corpo do calouro quando foi encontrado no fundo da piscina, na manhã de 23 de fevereiro. Ou seja, no dia seguinte à festa de confraternização entre calouros e veteranos.
"O banho de piscina é um batismo tradicional na medicina, mas, na minha época, ninguém obrigou os calouros a pular", disse a estudante do 3.º ano, ¶ngela Freitas, de 20 anos, que não participou do churrasco. "Por isso, não acredito que alguém possa ter visto o Edison se afogar e não ter feito nada", completou. Promotora - Para a promotora Eliana Passarelli, do 3.º Tribunal do Júri, que acompanha a investigação do caso, não é nenhuma surpresa a direção a faculdade chegar à conclusão que a morte do calouro não foi acidental. "Em nenhum momento trabalhei com essa hipótese, pois chegamos à conclusão de que houve, sim, trote violento", comentou a promotora, que trabalha com a hipótese de homicídio. "Agora, as investigações caminham para saber se o homicídio foi culposo ou doloso".

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