Uma rebelião simultânea em 24 presídios do Estado de São Paulo deixou pelo menos cinco mortos e nove feridos. Mais de 25 mil presos de 19 cidades começaram a controlar os presídios por volta das 12h de ontem.
Em São Paulo, 7.200 presos da Casa de Detenção e 2.500 da Penitenciária do Estado, ambos no Carandiru (zona norte de SP), assumiram o controle dos pavilhões e mantiveram funcionários e familiares de detentos reféns. Os detentos exigiam a volta de nove presos ligados ao PCC (Primeiro Comando da Capital) transferidos na sexta-feira. O PCC é uma facção criminosa que controla detentos em várias unidades do Estado.
Após o motim no Carandiru, detentos de outros 22 presídios se rebelaram. A tropa de choque foi mobilizada em todo o Estado. No final da tarde, a Secretaria da Segurança Pública confirmou as mortes de dois presos no CDP (Centro de Detenção Provisória) do Belém, e de outras três pessoas no Carandiru.
Até as 21h, a Polícia Militar não sabia informar se as vítimas eram presos ou reféns. A avaliação da secretaria era de que a situação já estava controlada em 15 das 24 penitenciárias naquele horário. Os presos já haviam libertado reféns nos presídios de São Vicente, Presidente Venceslau, Mirandópolis, São Bernardo (Campinas), Avaré 2, Sorocaba, Hortolândia 1 e 3, Iperó, Itaí, Iaras, Itapetininga, Assis, Presidente Bernardes e no CDP do Belém.
Segundo a capitã do 9º Batalhão da PM, Monica Bondezam, responsável pelo policiamento de área no Carandiru, os presos aproveitaram o dia de visita para se rebelar. ‘‘A polícia já sabe que o motivo da rebelião é a transferência dos presos do PCC’’, disse.
Por volta das 17h30, a tropa de choque invadiu o complexo do Carandiru, onde cerca de 7.000 pessoas, entre familiares e funcionários, foram impedidas de sair. Dez minutos depois foram ouvidos disparos. A tropa utilizou também munição química, como gás pimenta e bombas de gás lacrimogêneo.
Ao ver a tropa de choque invadir o presídio, parentes dos presos que estavam do lado de fora entraram em pânico e aos gritos de ‘‘assassinos’’ e ‘‘covardes’’, começaram a atirar garrafas de água, latas de refrigerante e papéis na direção dos policiais.
Para conter o movimento dos familiares dos presos, a PM isolou a área e atirou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha contra os manifestantes.
Por volta das 18h, os presos atearam fogo nos colchões e dez minutos depois, acenaram das janelas com lençóis brancos com inscrições sobre reféns.
A Polícia Militar divulgou os nomes dos líderes do PCC que foram mandados para outras unidades do Estado, principalmente a de Taubaté (interior de SP): Jonas, Macarrão, Frederico, Bolete e Airton, este último conhecido como ‘‘Sombra’’. Os negociadores do governo paulista informaram, desde o começo do motim, que não iriam atender à reivindicação dos rebelados.
O secretário de Segurança Pública do Estado de são Paulo, Marco Vinicio Petrelluzzi, confirmou que as rebeliões nos presídios paulistas seriam uma reação contra a transferência dos líderes de presos que recentemente foi feita. ‘‘Os dez principais líderes dessa organização, o PCC, foram transferidos para outras unidades do Estado e para outras do País e foi por isso que houve essa reação. É uma reação contra a administração adequada que está se fazendo nos presídios do Estado de São Paulo’’. O secretário afirmou que as rebeliões, agora, estariam restritas a dez presídios. Ele não soube precisar o número de reféns e nem o número de mortos. Confirmou apenas que há presos que foram assassinados pelos colegas.
Os presidiários escreveram em um campo de futebol do complexo penitenciário, o maior do Brasil, as palavras ‘‘paz, justiça e liberdade’’, o que seria o lema do Primeiro Comando da Capital.
O Estado de São Paulo acolhe 48% da população carcerária do Brasil, que totaliza 196.000 detentos, segundo dados da Igreja Católica.
O complexo do Carandiru é conhecido porque nele foi registrado o maior massacre carcerário da história do Brasil. No dia 2 de outubro de 1992, depois de uma briga entre presos, um batalhão da Polícia Militar invadiu o pavilhão 9 e começou a atirar. Em meia hora, morreram 111 presos e mais de cem ficaram feridos.

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