São Paulo, 23 (AE) - A liquidação do Banco Crefisul do empresário Ricardo Mansur, dono também do Mappin e da Mesbla, deixou os grandes fornecedores de equipamentos eletroeletrônicos ainda mais apreensivos, apesar de a maioria deles já ter suspendido as entregas para o grupo desde o início do ano.
A apreensão do fabricantes diz respeito não só quanto à perspectiva de receber cerca de R$ 60 milhões de débitos em atraso por parte do grupo, mas também à concentração dos canais de distribuição, que aumentou por causa do número crescente de pedidos de concordatas no varejo.
Na análise de especialistas, os fabricantes de eletroeletrônicos estão agora no pior do mundos: ao mesmo tempo em que as indústrias carregam um volume expressivo de créditos a receber, por causa do grande número de concordatas, a perspectiva de um mercado menor confirma-se a cada dia.
Há dois anos, relembra um empresário da indústria, existiam cerca de cem canais de distribuição de eletroeletrônicos no País. Hoje, no entanto, é preciso muito esforço para somar duas dezenas de redes de peso. Só nos últimos 12 meses, cinco grandes cadeias varejistas - G. Aronson, Arapuã, Disapel, Casa do Rádio e Brasimac - pediram concordata. Com a morátoria, o volume de negócios diminui em cerca de 30% e muitos pontos-de-venda são fechados, observam analistas do setor.
A contrapartida da redução do número de lojas especializadas em eletroeletrônicos é o aumento da distribuição por meio de supermercados. Um estudo da indústria revela que os supermercados detêm a distribuição de 18% do volume dos eletroportáteis e, em dois anos, essa fatia chegará a 30%. Há cinco anos, os supermercados respondiam por cerca de 8% dos volume de negócios realizados com eletroportáteis.
O aumento da fatia dos supermercados preocupa os fabricantes de eletroeletrônicos, especialmente porque esse canal de distribuição não valoriza o produto. Isto é, como o negócio principal dos supermercados é vender alimentos, os eletroeletrônicos com preços atrativos funcionam como um chamariz de vendas na loja para criar um fluxo de pessoas e, em boa parte das vezes, a marca do produto acaba sendo desvalorizada.
"É lamentável o que está acontecendo com o Mappin hoje, exatamente quando estamos vivendo o impacto da queda nas vendas", diz um fabricante eletroletrônico que vendeu pela última vez para a rede em dezembro do ano passado. Segundo o empresário, apesar de o Mappin não absorver sozinho grandes volumes, a rede "é uma bela vitrine para os seus produtos".
A Philips e a Walita deixaram de entregar seus produtos para o Mappin há quase um mês, informa a direção da empresa. Embora a Multibrás, donas das marcas Brastemp e Consul, negue o corte no abastecimento, seus concorrentes garantem que a companhia americana teria interrompido a venda de produtos. A Sharp, fabricante de aparelhos de áudio e vídeo, também deixou de abastecer o Mappin desde o fim do ano passado.
Prazos - Alguns fabricantes de televisores e videocassetes, pressionados pela necessidade de girar os estoques, estão entregando mercadorias para o Mappin, porém mediante pagamento à vista. A onda de concordatas no varejo provocou uma redução de até 70% nos prazos médios de pagamento exigidos pelas indústrias. Quem dava, até janeiro, 90 dias para o comércio quitar as dívidas, agora não oferece mais que 30 dias
revela um fabricante de televisores.
Problemas - Além de atrasar o pagamento de fornecedores, o empresário Ricardo Mansur enfrenta outros tipos de atrasos. Segundo informações de mercado, os aluguéis dos pontos comerciais em shopping centers da capital e do interior também estariam com pagamentos vencidos. No início deste ano, por exemplo, Mansur fechou 9 lojas com a bandeira Mesbla, a maioria instalada em shopping centers. Ele alegou, no entanto, que a redução ocorreu porque, em São Paulo, as lojas Mesbla concorriam diretamente com as do Mappin. "Estamos concentrando esforços no pontos mais lucrativos nas cidades em que temos vantagens comparativas", disse recentemente Mansur.
Socorro - Apesar de apreensivos, os grandes fabricantes de eletroeletrônicos e também credores do Mappin/Mesbla, não aventam a possibilidade de traçar um projeto de recuperação da empresa, semelhante ao esboçado com a Arapuã, com o objetivo de sanar a empresa. "O nosso negócio é fabricar eletrodomésticos, não vender no varejo", afirma um importante empresário do setor. Na época da crise na Arapuã, diversos fornecedores chegaram a cogitar a possibilidade de administrar a rede varejista para recuperar uma dívida superior a US$ 600 milhões. A idéia de ser sanada por indústrias não foi aceita pela família Simeira Jacob, acionista majoritária da Arapuã, que optou por recuperar sozinha a empresa.
O Mansur descarta uma saída momentânea pela via da concordata que poderia dar-lhe fôlego de 24 meses para quitar suas dívidas com os credores, por acreditar ser possível retomar o ritmo dos negócios sem usar esse expediente, e obter uma injeção de capital externo.

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