Extrema-direita avança na Turquia Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 20 (AE-AP) - Os "lobos cinzentos" voltaram à Turquia. Lobos cinzentos? A extrema-direita fascista, o MHP (Partido de Ação Nacional) que, depois dos brilhantes inícios na década de 60, quase desapareceu. A ponto de não ter conseguido superar a barreira de 10% dos votos (necessários para garantir uma participação parlamentar), nas eleições legislativas precedentes
em 1995.
No fim de semana o MHP conseguiu reunir 18% dos votos, o dobro do que obtinha normalmente, marcando um extraordinário avanço da extrema-direita fascista. Vencedor manteve-se a agremiação que está no poder atualmente, o Partido da Esquerda Democrática do primeiro-ministro Bulent Ecevit, que obteve 21% dos sufrágios. Porém os lobos cinzentos se encontram na segunda posição devendo
tal como já lhes aconteceu, integrar a próxima equipe governamental.
E, assim sendo, teremos na proa um partido de esquerda, a "esquerda democrática" do premiê Bulent Ecevit, e um partido de extrema-direita, de um político quase desconhecido, Devlet Bahgeli, de 61 anos, economista que assumiu a liderança do MHP no ano passado. Na aparência o casamento da água com o fogo, da esquerda republicana com uma direita xenófoba. No entanto, na realidade, há aspectos comuns entre esses dois extremos.
E quais seriam? Em primeiro lugar uma sólida desconfiança quanto aos messianismos islâmicos, integristas que, partindo do Irã ou do Afeganistão, já há alguns anos ameaçam deglutir a Turquia.
Em segundo lugar, tanto a extrema-direita quanto a esquerda jacobina opõem-se à ascensão do nacionalismo curdo que, segundo uns e outros, ameaça a unidade nacional. Esse sentimento anticurdo refletiu-se no dia 15 de fevereiro passado, com a prisão rocambolesca na Itália do líder curdo Abdullah Ocalan.
E existe ainda uma terceira paixão comum entre os lobos cinzentos e a esquerda republicana de Bulent Ecevit: a suspeita quanto à Europa unida. A tal ponto que somando os votos do último escrutínio, os dois partidos antieuropeus alcançam a considerável porcentagem de 40%.
Qual a razão desse "euroceticismo", melhor denominado de "ódio europeu"? Não há dúvida de que se trata do contrário de um amor. A Turquia, que tem um quinto de território europeu, é fascinada pela Europa.
Desde 1959 vem solicitando um status associativo à Comunidade Européia. Em 1987 apresentou um pedido formal de associação. A Europa ficou marcando passo. Há que observar que a rivalidade visceral entre a Grécia (que integra a União Européia) e a Turquia não colabora com o ingresso desta na Comunidade. A despeito do que Ancara não perdia as esperanças, mantendo seu postulado.
Porém a verdadeira "ducha fria" aconteceu mais tarde, no encontro de cúpula de Luxemburgo de 1997, quando a Turquia foi excluída da lista dos países candidatos à União Européia. E no início de 1999 as reações indignadas dos países europeus à captura por Ancara do líder turco Abdullah Ocalan, fez a amargura dos turcos chegar a seu ápice. Na ocasião, o escritor turco Ali Sirmen observou: "Os turcos compreenderam então que não participavam da família européia."
A ferida psicológica provocou uma oscilação nas prioridades da Turquia: antes de 1997 a Europa encontrava-se no primeiro lugar dos desejos turcos. Desde então Ancara voltou-se para Washington.
A esta altura revela-se uma vez mais o inexpugnável conflito de Kosovo: os turcos, muçulmanos e outrora donos da Albânia e de Kosovo, nos tempos do Império Otomano, são passionalmente favoráveis aos muçulmanos de Kosovo, "perseguidos" pelos sérvios, eslavos e ortodoxos.
Pelo que (ao contrário dos gregos, favoráveis aos sérvios e contrários à Otan) aprovam os bombardeios aéreos e a intransigência norte-americana.
"Para nós - escreve o cientista político turco Kamran Jnan - os americanos são os que contam, o que também demonstram. Ao contrário da Europa, os Estados Unidos compreenderam que o coeficiente estratégico da Turquia, nos subúrbios das futuras rotas da energia, aumentou ainda mais."
Eis aí, portanto, uma consequência inesperada da triste guerra de Kosovo: uma oscilação no sul dos Balcãs, com a Turquia distanciando-se do continente europeu e cerrando fileira com a superpotência americana.





