Madri, 08 (AE-IPS) - A decisão favorável à extradição de Augusto Pinochet anunciada hoje pelo juiz britânico Ronald Bartle constitui um duro revés para o governo espanhol de José María Aznar, que nos últimos dias tentou facilitar a liberação do ex-ditador chileno.
Bartle deu prosseguimento à extradição solicitada pela Espanha para julgar Pinochet por 35 casos de tortura e um de conspiração para torturar, delitos cometidos nas etapas finais do regime militar que encabeçou (1973-1990).
Em sua exposição, o juiz britânico explicou que não se pronunciaria sobre as demais acusações que pesam sobre o senador vitalício chileno, que serão motivo de um julgamento posterior.
A decisão de Bartle provocou reações de júbilo na Espanha, assim como de apoio ao juiz Baltasar Garzón, que pediu a extradição.
Mas nem todos brindaram nesta sexta-feira na Espanha. O governo de Aznar deu uma pirueta diplomática nos últimos dias, numa tentativa de agradar as autoridades chilenas, contrárias ao julgamento de Pinochet em Madri.
O governo espanhol enviou na quarta-feira a Londres dois diplomatas para contradizer junto ao promotor Brian Gibbins o juiz Garzón, que o havia ordenado a apelar imediatamente no caso de uma eventual decisão negativa sobre a extradição.
A lei britânica obriga que se notifique de imediato, uma vez anunciada a decisão, o interesse por uma apelação. O promotor Gibbins representa a Espanha no caso.
A ação diplomática foi classificada de ilegal e surpreendente pelos advogados da acusação.
Ao ser conhecida a iniciativa, os partidários da extradição de Pinochet reagiram de com indignação e o governo de Aznar viu-se obrigado a recuar.
O chanceler espanhol, Abel Matutes, tentou negar o objetivo da visita, ao ratificar na sexta-feira, oficialmente, a instrução "clara e precisa" apresentada antes por Garzón.
Mas Gibbins reclamou, numa carta na qual disse ter constatado diferenças entre o governo e o juiz Garzón em relação à apelação, por "instruções precisas e por escrito", o que deixou a manobra em descoberto.
O deslize foi conhecido quando faltam na Espanha no máximo seis meses para as próximas eleições.
Segundo as últimas pesquisas, a diferença de intenções de voto entre o governista Partido Popular (PP) e o opositor Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) é de apenas três pontos percentuais.
Essas sondagens revelam, também, que a maior parte dos eleitores indecisos se posicionam no centro do espectro político espanhol, compartilhado pelo PP e o PSOE, e se manifestam sensíveis à defesa dos direitos humanos.
O porta-voz do governo, Josep Piqué, afirmou hoje que o Poder Executivo "continuará colaborando com a justiça neste caso" e pediu "um sério esforço" de todas as forças políticas para preservar as relações com o Chile.
O PSOE , por seu lado, destacou que a notícia procedente de Londres "alegra todos os democratas e entristece o governo e seus promotores".

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