Exposição reúne no Museu do Ipiranga 146 carros antigos
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terça-feira, 25 de janeiro de 2000
Por Marli Olmos 
São Paulo, 25 (AE) - Eles saíram de casa cedo. Os mais velhos, que andam mais devagar, e os que vieram de longe iniciaram o trajeto de madrugada. Às 8h30, 146 reluzentes automóveis das décadas de 10 até 70 estavam rigorosamente enfileirados em frente ao Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga), posando para fotos, numa homenagem aos 446 anos de São Paulo.
Não havia como não chamar a atenção até de quem nem liga muito para carros. O paulistano que foi ao museu logo cedo foi surpreendido por Cadillacs, Oldsmobiles, Pontiacs, Buicks e até um caminhão da década de 20, que pegou carona numa carreta para conseguir viajar de Tatuí a tempo de participar do desfile.
Alguns moradores do Ipiranga quase choraram ao rever modelos que marcaram sua juventude. Caso de Antonio Roque, de 71 anos, e a esposa, que não conseguiram esconder a emoção ao encontrar um Chevrolet conversível 1950, igualzinho ao que eles compraram assim que casaram, aos 20 anos. O proprietário deste veículo saiu de Ubatuba às 5h da manhã.
Sonho de moleque - O modelo com o qual o apaixonado por carros antigos normalmente se identifica não é aquele que ele conseguiu comprar quando jovem. Mas o que pertenceu ao pai, a um tio, vizinho ou até de alguma forma embalou seus sonhos de moleque, segundo explica o presidente do Chevrolet Clube do Brasil de Carros Antigos, Cláudio Borrego.
Foi um Pontiac 1969 que o presidente da General Motors do Brasil, Frederick Henderson, apontou como o carro dos seus sonhos. Por que? Porque na época, quando ele tinha 11 anos, era o automóvel que qualquer rapaz conseguia encher de garotas para passear nos Estados Unidos.
"Automobilistas" é o nome politicamente correto para os apaixonados pela arte de ter ao menos um ou colecionar carros antigos. "Chamar a gente de colecionador é muita ostentação", explica o administrador de empresas Roberto Suga, que foi ao Ipiranga com um Cadillac 1974. Seu maior xodó ficou em casa: outro Cadillac que carregou a família imperial japonesa e que ele perseguiu durante anos, até conseguir comprá-lo.
A nostalgia deste pessoal não se restringe aos carros. Piqueniques com trajes de época ou passeios à praia com roupas de banho dos anos 20 e 30 fazem parte do lazer dos automobilistas. "Eu não teria o mesmo prazer se andasse num Mercedes de US$ 400 mil", explica Suga.
No trânsito - Para ser respeitado pelos guardas, o carro antigo precisa levar uma placa preta, à qual somente tem direito quando atinge 30 anos. E ainda assim com atestado de que 80% das peças são originais. Os mesmos requisitos são necessários para o proprietário se livrar do pagamento de IPVA em São Paulo e Minas Gerais.
Com esse "pedigree", o carro antigo também não precisa passar por modificações que os mais apaixonados caracterizariam como verdadeiras heresias. Não há lei capaz de convencer o proprietário do caminhão Chevrolet 1925 que foi ao Ipiranga hoje a estragar o assoalho de madeira para instalar um cinto de segurança.
Também perderia o romantismo da época o veículo fabricado nos anos de guerra que tivesse de receber um novo motor para atender às modernas normas de emissão de poluentes. "Este tipo de carro quase não circula", lembrou Borrego.
Depois da exibição em frente ao museu, os carros antigos - todos Chevrolet - desfilaram até a fábrica da General Motors em São Caetano do Sul, que convocou os sócios do Clube Chevrolet para comemorar seus 75 anos no Brasil. Num caso de exacerbada paixão pela reunião dos antigos, houve até quem interrompeu as férias para participar do desfile. Dali, os "automobilistas" retornaram para suas cidades, cada um respeitando a velocidade do seu veículo.


