Exposição audiovisual investiga conflitos agrários a partir de documentos inéditos
A mostra ‘As Terras do Paraná: conflitos sob o prisma dos arquivos inéditos do século XX’ segue aberta ao público até 29 de setembro, na UEL
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 18 de setembro de 2023
A mostra ‘As Terras do Paraná: conflitos sob o prisma dos arquivos inéditos do século XX’ segue aberta ao público até 29 de setembro, na UEL
Douglas Kuspiosz - Especial para a FOLHA 

A exposição audiovisual “As Terras do Paraná: conflitos sob o prisma dos arquivos inéditos do século XX” segue aberta ao público até 29 de setembro. Trata-se de um extenso trabalho de pesquisa que reuniu documentos dos arquivos do SNI-BR (Sistema Nacional de Informações) e do projeto “Opening the Archives”, da Brown University, dos Estados Unidos.
A mostra está disponível na Réplica da 1ª Igreja Matriz de Londrina, localizada no Calçadão da UEL (Universidade Estadual de Londrina), e traz cópias dos arquivos e um documentário desenvolvido pela equipe e que, cronologicamente, discute o processo histórico, político, social e econômico da estrutura fundiária do Paraná e do Brasil.
O professor Fábio Lanza, do Departamento de Ciências Sociais, explica que o objetivo do trabalho é expor, publicizar e popularizar esses arquivos que eram secretos ou estavam classificados como sigilosos.
“As pessoas não conseguem vislumbrar o que foi a ditadura militar porque por décadas essas informações foram omitidas”, explica o professor, que aponta que apenas a agência de Curitiba do SNI possui mais de 7 mil documentos.
De acordo com Lanza, a exposição evidencia a preocupação que o Estado tinha em “organizar uma produção agrícola que tivesse um objetivo: beneficiar os detentores de terra, em sua maioria grandes detentores, e que estivesse dentro da ideia de comércio internacional”.
O documentário começa apresentando questionamentos sobre a insegurança alimentar em um Estado como o Paraná, que é um dos maiores produtores e exportadores de grãos; a relação entre a riqueza do campo e a pobreza urbana; e o tratamento dado pelo governo e pelas empresas de colonização aos povos originários.
A linha cronológica organizada pelos pesquisadores discute algumas das revoltas ocorridas em terras paranaenses que ficaram emblemáticas: Guerra do Contestado (1912-1916), Guerrilha de Porecatu (1946-1951) e a Revolta dos Posseiros (1957). A exposição mostra que esses conflitos tiveram como matriz “o processo de expulsão dos camponeses, posseiros e povos originários de suas terras”.
A pesquisadora e estudante de Ciências Sociais, Lívia Campanheli, explica que trabalhou com os arquivos do SNI-BR, que estão disponíveis no NDPH (Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica) da UEL. O recorte histórico buscou compreender a organização do Paraná com as terras. “Buscamos nesses documentos, além das guerras, a área mais econômica do período, nacional e internacional, e como era a questão das terras para os indígenas, a terra para além da terra”, acrescenta.
“O documentário também tem essa questão da imagem dos presidentes, das terras, imagens do momento. Queremos passar esse nosso trabalho para a sociedade. É nosso papel como pesquisadores popularizar o acesso à pesquisa científica”, explica, citando que o projeto busca fazer um exercício de memória.
Lanza ressalta que os resultados obtidos pelo grupo são pautados em fontes históricas. “Você tem a Comissão Estadual da Verdade com relatório, com nomes e dados de pessoas que foram vítimas desse conflito agrário no Estado, nós temos os dados do SNI-BR, 7 mil documentos, e tem os arquivos abertos dos EUA”, diz. “É uma pesquisa sociológica, historiográfica e antropológica, porque ela não tem um limite em uma caixinha. É importante para qualquer estudante e qualquer cidadão.”
O documentário está disponível no canal do Youtube do projeto Práxis Itinerante.
OPENING THE ARCHIVES
A doutoranda Marina Adams, da Brown University, e coordenadora do “Opening the Archives”, explica que o projeto foi estabelecido pelo historiador James Green e, desde 2013, já digitalizou mais de 65 mil documentos que, ou eram de difícil acesso a pesquisadores brasileiros, ou estavam esquecidos.
“São arquivos produzidos no exterior, nos Estados Unidos principalmente, acerca da ditadura no Brasil. São arquivos da vigilância, da espionagem, do Departamento de Estado, comunicações dos consulados, entendendo que os EUA em particular tiveram uma participação bem grande na ditadura militar”, aponta.
Em relação à contribuição para a exposição, Adams aponta que o “Opening the Archives” entra como um recurso para a pesquisa. Em uma outra exposição em 2022, Green esteve em Londrina e conversou com alunos e, agora, foi a vez da doutoranda participar da abertura da exposição “As Terras do Paraná”, que ocorreu no dia 28 de agosto.
“Nossa contribuição entra nessa parte da colaboração, no sentido de fazer disponíveis arquivos que eles possam utilizar, mas também compartilhando a experiência para fomentar e avançar um trabalho que está sendo feito na UEL que é extremamente fundamental para os estudos sobre a ditadura”, afirma.
Adams destaca que os documentos “esclarecem a complexidades das relações transnacionais durante o período da ditadura militar” e os relatórios usados na exposição mostram os interesses econômicos dos EUA com a produção agrícola brasileira.
SERVIÇO
Exposição “As Terras do Paraná: conflitos sob o prisma dos arquivos inéditos do século XX”
Local: Réplica da 1ª Igreja Matriz de Londrina, localizada no Calçadão da UEL
Duração: até 29 de setembro
Ingresso: Gratuito


