São Paulo, 24 (AE) - Os dados da balança comercial deste início do ano mantêm a tendência, já reforçada no último trimestre do ano passado, de crescentes superávits comerciais. E a razão é o desempenho bem mais dinâmico das exportações, ao par de uma recuperação menos significativa das importações, cujo impulso, em valores financeiros, deriva substancialmente da alta dos preços do petróleo, segundo o Boletim mensal da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex) divulgado hoje.
A análise da balança até fevereiro elaborada pela Funcex ressalta as elevadas taxas de crescimento em valor de todas as classes de produtos, na comparação mês a mês com o desempenho do ano anterior, crescimento fermentado pelo aumento das quantidades vendidas - o chamado "quantum" das exportações. Mais alvissareiro ainda é a expansão das vendas de produtos manufaturados, "ao passo que os preços vêm revertendo de forma muito lenta e discreta as perdas acumuladas desde o início de 1998", adverte o Boletim.
Preços e desvalorização - "O importante a destacar em termos de tendência é que a queda das exportações em valores acumulados em 12 meses reduziu-se para apenas 0,7% em fevereiro, após ter alcançado um pico de mais de 13% em meados de 1999", sublinha a Funcex, observando que os valores dos manufaturados, em particular, acumulam queda de apenas 0,2%, enquanto os dos semifanufaturados crescem 4,5%. Os produtos básicos, porém, registraram uma queda de 7,4%.
A Funcex qualifica o desempenho do quantum das exportações no primeiro bimestre do ano de "excepcionalmente favorável", com as exportações totais apresentando um crescimento de 27,4%, em relação ao mesmo período de 1999 e os produtos manufaturados, uma expansão de 37,65%, de longe a melhor dentre as três classes de produtos. De fato, seminaturados cresceram 12,6% e os produtos básicos ampliaram -se 12,3%.
"O efeito da base de comparação prejudica um pouco essa análise, mas quando se considera a média móvel de 12 meses dos índices, percebe-se que a recuperação é bastante consistente", observa o centro de estudos.
A comparação pelas médias móveis mostra que as exportações totais cresceram 12,3%. Mas o destaque já passa para a expansão de 18,1% dos semimanufaturados, com os básicos registrando um incremento de apenas 8,7%.
Mesmo assim, os manufaturados não desapontam, já que acumulam crescimento de 11,9% em 12 meses, o que representa uma recuperação bastante rápida, uma vez que, até julho do ano passado, acusavam uma queda de 8,1%. E o nível médio atual (em 12 meses) do quantum de manufaturados é 10,1% superior ao pico registrado em julho de 1998. Para as exportações totais, o n‹vel médio de fevereiro era 3,8% superior ao pico anterior, também observado em julho de 1998.
Mas os preços correm na direção contrária, com o nível médio do índice de preços das exportações totais em fevereiro no ponto mais baixo desde março de 1994. A queda acumulada desde junho de 1996, mês de pico da série de preços, chega a 19,5%.
Segundo o economista Fernando Ribeiro, consultor da Funcex e professor da PUC-Rio, uma parcela substancial da queda dos preços de exportação reflete o desconto que os exportadores acabam dando aos importadores por conta da desvalorização cambial.
"Esse é um poder natural do exportador, e no ano passado foi certamente o câmbio o fator que prevaleceu no comportamento dos preços", frisou Ribeiro.
Escorado num série histórica que remonta a 1995, Ribeiro nota existir um coeficiente de 20% de repasse da desvalorização aos importadores. Em outras palavras, para cada 10% de desvalorização cambial, os preços diminuem 2%. Assim, dos 56%, na média, de desvalorização de 99, os exportadores descontararam 10,8% nas vendas .
Importações - No outro prato da balança comercial, a Funcex aponta "sinais nítidos" de recuperação do aumento dos valores das importações. A Funcex ressalva, no entanto, que o valor médio mensal dos 12 meses encerrados em fevereiro, de US$ 4,1 bilhões, é o mais baixo desde meados de 1996.
"Com efeito, a recuperação recente baseia-se, por um lado, no grande amento dos preços internacionais do petróleo - enquanto os preços dos demais produtos têm apresentado queda - e
por outro, na recuperação das quantidades importadas de bens intermediários", assinala o Boletim da fundação, constatando que os preços dos combustíveis importados tiveram um aumento de preços de 135,6% na comparação entre fevereiro passado e fevereiro de 1999.
Os bens intermediários concentram as importações em termos de quantidades, de "quantum", com uma queda de apenas 2% no acumulado de 12 meses encerrados em fevereiro, explicada, aparentemente, pelo padrão atual da retomada do crescimento da economia brasileira, que, segundo a Funcex, baseia-se na substituição de importações, na expansão das vendas externas e na recuperação da produção industrial a partir da utilização da capacidade ociosa dos últimos dois anos.

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