Porto Alegre, 27 (AE) - Superada a ameaça do boicote organizado pela Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), começa amanhã (28), às 8 horas, no Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, a Expointer 1999. Foram inscritos 5,3 mil animais, mas a organização acredita que os criadores enviarão cerca de 4 mil. O número de visitantes esperado pela Secretaria da Agricultura do Estado, promotora da exposição, é de pelo menos 700 mil, o mesmo registrado em 1998.
A quebra tradicional de 20% entre a quantidade de animais inscritos e enviados ao parque pode aumentar este ano por causa dos atrasos nos preparativos das cabanhas provocados pelo impasse entre governo e produtores, que começou na semana passada e só foi solucionado ontem (26). Outra consequência da crise foi o alongamento da feira até o dia 7, dois dias além do prazo original. De acordo com o coordenador da Expointer, Cláudio Brondani, até a metade da tarde de hoje, havia ingressado no parque 1,3 mil animais. O prazo original para o envio dos exemplares inscritos encerraria nesta noite, mas também foi prorrogado para as 8 horas de domingo (29). Os cavalos crioulos que concorrerão na prova de habilidade Freio de Ouro, transferida deste fim de semana para o próximo, poderão chegar até quarta-feira (01).
Em 1998, foram inscritos 5,06 mil animais, incluindo bovinos, zebuínos, bubalinos, equinos, suínos, caprinos e espécies menores. Deste total, 4 mil, efetivamente, ingressaram no parque e 1,28 mil foram vendidos em leilões, gerando uma receita de US$ 1,3 milhão.
O segmento de máquinas e implementos também enfrentou uma retração de 1998 para este ano. O número de expositores caiu de 69 para 40 neste período, mas, neste caso, a razão foi a retração da economia a redução da capacidade de investimento dos produtores. Em 1998, as vendas do setor alcançaram R$ 35 milhões na feira.
Os dois principais agentes financeiros que estarão presentes na feira, os Bancos do Estado do Rio Grande do Sul (Banrisul) e do Brasil (BB), anunciaram a disponibilização de R$ 40 milhões e R$ 4 milhões, respectivamente, em linhas de crédito para aquisição de máquinas e animais. O BB também colocará à disposição dos produtores a linha Finame Agrícola, com recursos ilimitados.
Entre os animais de grande porte, as principais raças de bovinos representadas são jersey (283 exemplares), holandês (212) e charolês (196). A principal linhagem de ovinos é a texel
com 226 representantes. A de equinos é a Crioula, com 374. D Do total das inscrições, 309 são de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul e 14, da Argentina.
Além da exposição e venda de máquinas e animais, a Expointer 1999 vai sediar encontros e debates de produtores e técnicos do setor primário, além do Fórum Nacional dos Secretários de Agricultura, na terça-feira (31). O ministro da Agricultura, Marcus Vinícius Pratini de Moraes, vai despachar na Casa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em princípio, entre os dias 1º e 5, informou a Assessoria de Comunicação do ministério.
Durante uma semana, a Expointer 1999 enfrentou a ameaça de um boicote dos criadores de animais organizado pela Farsul. Os produtores aproveitaram a proximidade da feira para pressionar o governo federal pelo estabelecimento de novos índices de produtividade a serem empregados nas propriedades rurais gaúchas nas vistorias para seleção de áreas destinadas à reforma agrária.
Como resultado, eles conseguiram que os Ministérios da Agricultura e extraordinário de Política Fundiária editassem uma portaria conjunta, constituindo uma nova comissão para, dentro de 30 dias, estabelecer critérios específicos para o Rio Grande do Sul. Durante este período, as vistorias de terras ficarão suspensas no Estado.
O grupo criado pela portaria é constituído por representantes dos dois ministérios e vai levar em consideração levantamentos feitos por universidades e instituições de pesquisa gaúchas. Ele substituiu uma comissão que vinha estudando o assunto com base no suporte técnico fornecido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que era questionado pelos produtores gaúchos.
No caso da pecuária, atualmente, é considerada produtiva - e, portanto, fica livre de desapropriação - a propriedade com índice de lotação igual ou superior a 0,8 unidade animal (cerca de 360 quilos) por hectare. Os pecuaristas querem reduzir este parâmetro à metade.
Os produtores também aproveitaram a Expointer para fazer pressão sobre o governo estadual, que, segundo o presidente da Farsul, Carlos Sperotto, teria uma "intimidade muito grande" com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A crise explodiu dia 12, quando cerca de 400 famílias ligadas ao MST invadiram a fazenda Capivara, em Hulha Negra, no Sul do Estado. O governo, na opinião da entidade, tardou a cumprir o mandado de reintegração de posse ao proprietário.
Oficialmente, a Farsul queria que o governo petista adotasse uma política mais dura em relação aos sem-terra. De prático, ela conseguiu, no fim, a prorrogação até 2002 do convênio de administração conjunta da Expointer firmado com a Secretaria da Agricultura ainda no governo passado. Durante este período, a entidade vai ressarcir-se dos gastos com a construção e as melhorias de baias para os animais, por intermédio da veiculação de publicidade nesses espaços.
À medida em que os investimentos - que alcançaram R$ 900 mil nos dois últimos anos - forem cobertos, as instalações serão incorporadas ao patrimônio público, diz o acordo assinado ontem (26). Até então, a intenção do governo era romper este ano o convênio firmado entre a administração anterior e a Farsul, com a absorção imediata das baias de animais pelo Estado.

mockup