Expoente do café no Paraná, Tumoru Sera morre aos 74 anos
Engenheiro agrônomo no IDR, Sera contribuiu com a produção cafeeira por 50 anos, impactando o Brasil e outros países; profissionais relembram as maiores contribuições do colega
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segunda-feira, 13 de outubro de 2025
Engenheiro agrônomo no IDR, Sera contribuiu com a produção cafeeira por 50 anos, impactando o Brasil e outros países; profissionais relembram as maiores contribuições do colega

Tumoru Sera, descendente de japoneses, pai de Rogério e Gustavo e desbravador do café paranaense, morreu nesta segunda-feira (13), aos 74 anos, em Londrina. Nascido em Nova Fátima, Norte do Estado, Sera acumulou diversos títulos durante seus 50 anos de contribuição para a evolução das lavouras de café. Foi engenheiro agrônomo, pesquisador, geneticista, consultor agronômico e cafeicultor agricultor, além de inspiração para o caçula, Gustavo, que seguiu os passos do pai e é pesquisador na área de melhoramento genético de café do IDR-PR (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná).
Na agricultura familiar desde criança, ajudando os pais Shige Kuwano Sera e Jitsu Sera na lavoura, Tumoru foi alfabetizado em japonês. Seu primeiro contato com o português veio aos 8 anos de idade, quando começou a frequentar a escola formal.
Ele se formou técnico agrícola pelo Colégio Agrícola Manoel Ribas de Apucarana, em 1969, e Engenheiro Agrônomo pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), em 1973. No ano seguinte, logo antes de completar 23 anos, sua bagagem de experiências impulsionou o seu ingresso no IDR, na época, ainda Iapar. Se especializou ainda mais ao longo dos anos, como mestre e doutor em Genética e Melhoramento de Plantas pela Esalq, em 1980 e 1987, respectivamente.
A profissionalização ultrapassou as barreiras geográficas brasileiras, com a obtenção de mais dois títulos na terra natal dos pais, o Japão. Em 1990, se tornou pós-doutor pela Nias (National Institute of Agrobiological Sciences, o Instituto Nacional em Ciências Agrobiológicas, em tradução livre). Já em 2001, foi titulado especialista em Melhoramento por Mutação Induzida por Radiação Crônica, pela National Institute of Radiation Breeding (Instituto Nacional de Melhoramento por Radiação, traduzido livremente).
'Recomendação na ponta da língua'
Romeu Gair, engenheiro agrônomo do IDR desde 1992 e coordenador estadual de extensão, conheceu Sera quando ainda era aluno de agronomia na UEL (Universidade Estadual de Londrina) e bolsista no Instituto. Em 1998, ele participou de cursos promovidos por Tumoru aos extensionistas.
Gair relembrou que o mentor, tornado colega de trabalho e amigo, sempre recomendava o “plantio adensado como uma forma de aproveitar melhor os recursos naturais, promovendo uma melhor cobertura do solo e melhor aproveitamento dos adubos aplicados no solo, além de sempre buscar altas produtividades para que os cafeicultores familiares pudessem conviver com baixos preços internacionais do café”.
Segundo o coordenador, Sera “sempre tinha uma recomendação sobre café na ponta da língua para te dar”, descrevendo o homem como solícito. Elogiando as habilidades do colega, disse ainda que “o seu modo de pensar em um tempo mais além da nossa existência sempre foi um dos seus princípios, e que para nós era até difícil de compreender”.
Café resistente
Em 50 anos de atuação no IDR, Sera teve inúmeras contribuições a pesquisas no âmbito da produção cafeeira e aplicações práticas no campo, se tornando um expoente do melhoramento genético de plantas resistentes a insetos e doenças.
Juntamente de sua equipe, desenvolveu a IPR 100 e a IPR 106, as únicas variedades de café arábica do mundo que são resistentes a três espécies de nematóides (vermes microscópicos e parasitas), com potencial produtivo e qualidade arábica com genes de café libérica e robusta, respectivamente, com resistência a calor, seca e solo pobre.
No total, foram 13 cultivares de café arábica de portes baixos registrados no Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária), todas com genes de resistência à ferrugem, sendo duas também resistentes aos nematóides e uma resistente a duas espécies da bacteriose Pseudomonas. Gair considerou o trabalho como a contribuição mais impactante de Sera, visto que “são plantadas não só no Paraná, mas em várias regiões cafeeiras do Brasil e algumas regiões do mundo”.
Tumoru também reduziu o tempo de desenvolvimento de cultivares a partir da hibridação com a cultivar IAPAR 59, com cinco genes de resistência completa à ferrugem, de 36 para 15 anos. Quando se aposentou do IDR como melhorista genético de café, em 2009, seguiu como voluntário tutor na Unidade de Melhoramento de Café do Instituto, como bolsista do Consórcio Pesquisa Café. Seu filho, Gustavo Sera, foi chefe do próprio pai, em seu cargo vigente como Coordenador estadual de pesquisa do Programa Café.
‘Maior cientista cafeeiro do Paraná’
Com mais tempo livre nos últimos anos, Sera vinha atuando como parceiro do Museu Histórico de Londrina, colaborando para a recomposição da tradicional plantação de café no jardim da instituição. O objetivo era proporcionar um resgate da memória agrícola da cidade.
Edméia Ribeiro, diretora do museu, considerou o colega “a grande referência sobre o café, indo além do Paraná”. Segundo Ribeiro, Sera “entendia tudo”, citando as tipologias do café, a qualidade, a maturação e até o controle de pragas.
Reviver o cafezal
A parte externa do museu abrigava um cafezal que “ficou velho e adoeceu”, sendo que Tumoru se responsabilizou por replantar o que foi perdido. As mudas foram preparadas no IDR, contemplando diversas espécies, tipologias e qualidades, com diferentes períodos de florada.
A demora no início do plantio se deu por conta da preparação das covas para receber as mudas, sem um caminhão à disposição da UEL. O próprio Sera viabilizou o transporte do material somente há três semanas. A diretora lamentou que “ele não teve a chance de começar a plantação, mas deixou tudo preparado, agora é só plantar o café, o que provavelmente nós vamos dar continuidade com o Gustavo, o filho dele”.
O velório de Tumoru Sera ocorre na noite desta segunda, sendo que o sepultamento está marcado para a manhã de terça (14).
(Com CONFEA)


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.


