Pristina, 21 (AE-AP) - Mantenedores de paz localizando minas terrestres, armadilhas simples e artefatos não detonados em uma escola de Kosovo causaram uma explosão acidental nesta segunda-feira (21), causando a morte de dois soldados nepaleses e dois civis - as primeiras mortes aliadas desde que as forças comandadas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) entraram em Kosovo em 12 de junho.
Soldados do 69º Esquadrão de Campo Gurkha - membros do exército desta nação do sul da ásia ligados às forças de manutenção de paz britânicas - ajudavam a localizar munição no vilarejo de Negrovce, 30 quilômetros a oeste de Pristina, quando ocorreu a explosão, informou a Otan. Dois civis também morreram e um terceiro ficou ferido. Os mantenedores de paz britânicos disseram estar investigando a causa da explosão.
O presidente norte-americano Bill Clinton, que está na ex-república iugoslava da Eslovênia, telefonou para o primeiro-ministro britânico Tony Blair para oferecer suas condolências, disseram autoridades.
Apesar da explosão, a paz parecia mais forte do que nunca, com rebeldes albaneses assinando um pacto de desarmamento com a Otan para abandonar suas armas. O acordo veio poucas horas depois do último dos 40.000 soldados sérvios deixar Kosovo.
Os cerca de 20.000 soldados da KFOR agora em Kosovo disseram estar indo além de suas tentativas iniciais de conter a violência e começar a olhar para o longo prazo - estabelecendo a segurança e criando o cenário para a realização de eleições democráticas.
"Muito em breve, a KFOR será a única presença de segurança militar aqui. É assim que deve ser", disse o tenente-general Mike Jackson, chefe das forças de manutenção de paz, nesta segunda-feira.
Horas antes, ele recebeu dois documentos cruciais. O primeiro era a confirmação do exército iugoslavo - dominado por sérvios - de que suas forças, acusadas de atrocidades contra a maioria albanesa étnica de Kosovo, saíram de Kosovo de acordo com o prazo da meia-noite previamente estabelecido.
O segundo, vindo poucos minutos após a meia-noite, foi um compromisso do Exército de Libertação de Kosovo (ELK) de depor suas armas, retirar seus soldados para barracões e unir esforços para estabelecer políticas pacíficas em Kosovo.
Com a confirmação de que todas as forças sérvias estavam fora de Kosovo, a Otan encerrou oficialmente sua campanha aérea. O governo de Belgrado tomou uma atitude recíproca hoje, pedindo ao parlamento que encerre o estado de guerra imposto em 24 de março
informou a agência de notícias estatal Tanjug.
O estado de guerra declarado no dia em que a Otan iniciou sua campanha aérea proibia homens em idade militar de deixar o país, deixava o exército comandar instituições importantes e tornava a imprensa passível de censura.
Mas ao mesmo tempo surgiam novas informações de mais sanções contra a imprensa: uma associação das rádios e televisões independentes da Iugoslávia dizia que o governo estava obrigando estações independentes a substituir seus noticiários pelos produzidos pelos órgãos de imprensa estatais.
Os rebeldes concordaram com uma vasta desmilitarização que requerirá deles que abandonem seus postos de checagem a interrompam suas atividades militares a não ser que os mantenedores de paz as aprovem primeiro.
Apesar de poder permanecer com suas armas pessoais, eles concordaram em não utilizar explosivos, guardar as armas restantes em estoques supervisionados pela Otan e limpar campos minados e armadilhas dentro do prazo de sete dias.
"O ELK deu uma grande contribuição para a liberdade", disse em Pristina o líder rebelde Hashim Thaci. "O ELK lutou para conquistar o que conquistamos hoje."
Thaci, fazendo sua primeira aparição pública em Kosovo desde que as tropas de manutenção de paz entraram, gozou de reconhecimento internacional.
O porta-voz do Departamento de Estado norte-americano James Rubin sentou a seu lado enquanto ele assinava o compromisso e apresentou-o hoje em entrevista coletiva. Os dois foram vistos depois tomando café com ele em um bar de Pristina.
Rubin disse que a secretária de Estado Madeleine Albright e Clinton falaram posteriormente por telefone com Thaci e expressaram admiração por seu "corajoso ato político".
Muitos nas fileiras já parecem estar concordando. "Recebemos uma ordem de retornar para casa e começar uma vida normal com nossas famílias", afirmou o combatente do ELK Faik Reci, um professor esperando por uma carona para casa com seu irmão, disse em Prizren, a segunda maior cidade de Kosovo.
O comandante regional do ELK, conhecido por seu nome de guerra "Drini", deu a oficiais alemães mapas de campos minados - a maioria na fronteira com a Albânia - como determinado pelo acordo.
O brasileiro Sérgio Vieira de Mello, o oficial da ONU que na prática se tornou o governador de Kosovo pelo acordo de paz, expressou preocupação no domingo que as atividades do ELK poderiam sabotar sua autoridade. Hoje, ele saudou o acordo e deu início ao trabalho de construção da paz.
Enquanto Jackson é prioritariamente responsável pela segurança
as tarefas de Sérgio de Mello incluem fazer voltar a funcionar os serviços elétricos, de água e outros municipais em toda Kosovo, reestabelecer tribunais civis e forças de polícia, e preparar a província para as eleições.
Sérgio disse que um de seus primeiros atos seria emitir duras ordens de controle de armas. Enquanto o acordo exige que os combatentes do ELK armazenem todos seus armamentos pesados, eles têm permissão de manter pistolas e fuzis não-automáticos. O ELK anunciou que seus antigos combatentes irão se inscrever para cargos em governos municipais e na força policial. Rubin disse que eles deveriam receber "consideração especial em vista do conhecimento que desenvolveram" nas contratações para a polícia.
Enquanto isto, o presidente Slobodan Milosevic estava tentando desarmar uma problema potencialmente desestabilizador dos civis sérvios fugindo de Kosovo, convencidos de que as tropas lideradas pela Otan não irão protegê-los de ataques revanchistas de albaneses étnicos. Seu governo tem dado pouca atenção ao problema deles na mídia oficial, evitado que eles armem acampamentos em cidades sérvias e tentado forçá-los a voltar para Kosovo em comboios liderados por oficiais do governo.
Um comboio de 150 pessoas rumou de volta da cidade sérvia de Kragujevac e 50 veículos partiram de Krusevac, divulgou hoje a mídia de Belgrado. Depois de confiscar suas armas e granadas na fronteira, soldados de paz italianos escoltaram uma coluna de 50 carros de sérvios de Montenegro para Pec.
Mas refugiados continuaram a fugir de Kosovo, e a agência de refugiados da ONU afirmou que a situação dos cerca de 50.000 sérvios na província "é muito difícil".
Várias centenas de refugiados chegaram a Belgrado e promoveram hoje uma manifestação, a segunda em dois dias. A polícia dispersou o protesto, falando a eles que o ato era ilegal.
Enquanto isto, refugiados albaneses étnicos continuavam a voltar em massa. A ONU estimou hoje que 137.000 dos 860.000 que fugiram de Kosovo já retornaram.

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