Explicação de Washington não convence chineses
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terça-feira, 15 de junho de 1999
Por Antoaneta Bezlova, da IPS 
Pequim, 16 (AE-IPS) - A explicação dos Estados Unidos sobre o bombardeio da embaixada da China em Belgrado durante um ataque aéreo da Otan dificilmente fará melhorar as deterioradas relações bilaterais, advertiram analistas chineses.
O encarregado de oferecer a explicação oficial de Washington sobre o bombardeio de 7 de maio, que causou a morte de três jornalistas chineses, é o enviado especial e subsecretário de Estado Thomas Pickering, que chegou a Pequim na noite de terça-feira.
Mas sua visita ocorre no momento em que especialistas chineses em política exterior estão convencidos de que os Estados Unidos e seus aliados têm como objetivo último conter o crescimiento da China.
Portanto, será muito difícil para Pickering convencer os líderes chineses de que o ataque contra sua embaixada por um avião americano foi um "trágico erro".
Pequim se negou oficialmente a aceitar a teoria do erro, que segundo os Estados Unidos foi consequência do uso de um mapa desatualizado de Belgrado.
Os chineses comuns também não acreditam nessa teoria. O governo exigiu um pedido público de desculpas por parte dos Estados Unidos, uma investigação minuciosa, a divulgação dos resultados e um castigo severo dos responsáveis.
"É impossível que a explicação satisfaça a China", opinou Zhang Zhongyun, professor de política internacional da Faculdade Central do Partido.
"Se eles sustentarem que foi intencional, a verdadeira história será um segredo de Estado, e Washington encontrará uma desculpa para nos contar. Se sustentarem que foi um erro, então devem castigar os responsáveis", sublinhou.
Mas se Washington cumprir as exigências de Pequim de investigação, revelação pública e castigo, isso seria interpretado como prova de sua sinceridade.
"Se os Estados Unidos apresentam uma explicação razoável, não será impossível que os chineses aceitem que foi um erro", afirmou Gao Heng, do Instituto de Investigação Econômica e Política da Academia Chinesa de Ciências Sociais.
"Mas Washington não deve pensar que pelo fato de a China ser um país pobre e desejar ingressar a Organização Mundial do Comércio (OMC), ela fará concessões em questões políticas. Se ferem nossa soberania, não podemos fazer negócios", advirtiu.
A máquina de propaganda estatal difunde a mesma mensagem. Um editorial do Diário do Povo destacou que Pequim nunca permitirá que um país estrangeiro cause danos à sua soberanía.
As relações entre China e Estados Unidos têm se deteriorado perigosamente desde o bombardeio da embaixada, mas antes do incidente outros assuntos já haviam congelado a "parceria estratégica" procurada pelos presidentes Jiang Zemin e Bill Clinton.
A política de Clinton de "compromisso" com a China sofreu um grande revés devido a acusações de que Pequim roubou segredos de tecnologia nuclear e tentou comprar influência política em Washington.
As imagens de multidões enfurecidas jogando pedras na embaixada dos Estados Unidos em Pequim em protesto contra o bombardeio da Otan só fez avivar as chamas do sentimento antichinês no Congresso americano.
Por seu lado, Pequim rompeu as conversações bilaterais sobre temas militares, de direitos humanos e proliferação nuclear. Também suspendeu as negociações sobre seu ingresso na OMC, que tenta há mais de uma década.
Especialistas chineses em política exterior sustentam que a missão da Otan em Kosovo é um prelúdio para sua expansão na ásia.
Afirmam que os Estados Unidos, temerosos do crescimento da China como potência mundial e de sua potencial expansão para o oriente, tentam dividir esse país e afundá-lo no caos.
"É muito provável que os Estados Unidos comecem a incorporar países asiáticos à Otan uma vez que se resolva a crise de Kosovo", opinou Wei Minfu no periódico Estratégia e Administração.
"Esses países asiáticos poderiam formar uma Otan menor para cooperar com a grande Otan da Europa", acrescentou.
Pequim insistiu que apenas uma desculpa pública, uma investigação minunciosa e o castigo dos responsáveis pelo bombardeio de sua embaixada em Belgadro poderia reparar os danos causados em suas relações com Washington e acalmar os ânimos dos chineses.
O dia em que Pickering pisou em solo chinês, a imprensa estatal montou uma enérgica campanha antiamericana e exortou os chineses a contruir "o grande muro da defesa nacional"
Nenhuma meio de comunicação informou da chegada de Pickering nem sobre sua missão. Ao contrário, o Diário do Povo e o Guangming publicaram longos artigos sobre as lições que a China deveria aprender com a crise de Kosovo.
"O povo americano tem uma psiquê muito debilitada e não pode aguentar as dificuldades de uma guerra terrestre", disse Quan An, um especialista militar, em entrevista publicada pelo jornal Guangming.
"Por isso, se um país pobre enfrentar militarmente os Estados Unidos, deve fortalecer seu sistema de defesa antiaério".


