Os antropólogos contratados pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, com sede no Ministério da Justiça, iniciaram ontem a escavação do terreno em Nova Aurora (61 km ao norte de Cascavel) onde supostamente foram enterrados os corpos de um grupo de guerrilheiros que desapareceu durante a ditadura militar. A equipe do Estudios de Antropologia Forense, de Buenos Aires, não encontrou a vala onde poderiam estar os restos mortais de um argentino e de seis brasileiros da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que sumiram ao tentar entrar no Brasil, através do Paraná, em 1974.
O trabalho feito em uma plantação de trigo à margem da PR-239 começou às 7 horas. Os operários fizeram a primeira escavação no ponto que apresentava indícios de haver uma cova. Investigação preliminar feita com um radar de penetração de solo, em maio deste ano, indicou que naquele ponto a terra estava remexida. Os homens abriram uma vala de oito metros de comprimento por um metro de largura e quase um metro e meio de profundidade.
Outra frente de trabalho abriu uma vala menor próxima à primeira. Mas nenhum vestígio foi encontrado. A área foi apontada por um militar como local onde os corpos teriam sido escondidos. Segundo o informante, testemunha ocular do suposto sepultamento, os revolucionários foram enterrados à margem da pista de pouso numa fazenda pertencente, na época, ao deputado pela Aliança Renovadora Nacional (Arena) Fouad Nacli. O campo era utilizado pelas Forças Armadas.
A abertura das duas primeiras valas terminou às 16 horas. Após reavaliar as coordenadas, o geofísico do Departamento de Geologia do Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Paulo Roberto Antunes Aranha, orientou a abertura de uma terceira vala, distante 4,5 metros do local. Mas os trabalhos tiveram que ser interrompidos às 18 horas por falta de luminosidade no ambiente.
As escavações serão retomadas hoje e, em caso de resultado desfavorável, serão abertas outras valas. A área demarcada pelos técnicos tem 180 metros quadrados, o que impede determinar um prazo para conclusão do trabalho.
Além da expectativa de encontrar as ossadas, a expedição em Nova Aurora resultou ainda no encontro de ex-guerrilheiros. Ontem, o jornalista Aluízio Palmar, 58 anos, ex-líder da VPR e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), um dos responsáveis pela investigação, passou o dia com o ex-guerrilheiro José Carlos Mendes, e com Alberto Fávero, irmão do professor André Fávero, que foi capturado em Nova Aurora em 1970 e torturado em Foz do Iguaçu.
Aluízio Palmar, ao ver encerrado o primeiro dia de buscas, resumiu o pensamento dos companheiros dos desaparecidos políticos. ‘‘Tínhamos a informação, a pista. Somente com a essa expedição poderemos saber se ela será verdadeira ou falsa. Acredito na possibilidade de encontrar o corpo Onofre’’, comentou, referindo-se a Onofre Pinto, líder do grupo que desapareceu na fronteira do Brasil com Argentina há 27 anos.

mockup