Mesmo que a expedição do Ministério da Justiça em Nova Aurora não consiga encontrar as ossadas dos sete guerrilheiros da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) desaparecidos durante a ditadura militar, ela ajudará a lançar luz sobre um dos períodos mais negros da história brasileira. Essa é a opinião de militantes de movimentos de esquerda que lutaram contra a repressão ouvidos pela Folha.
‘‘Sempre tive certeza que, um dia, a verdadeira história seria contada. Os militares não conseguirão mascarar a verdade para sempre’’, afirmou o dentista Lauro Consentino Filho, 58 anos, que hoje vive em Curitiba, onde coordena um centro de atendimento a pessoas que sofrem de fissura lábio-palatal.
Ex-militante do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), Consentino Filho atuou como apoio logístico à guerrilha em Medianeira (58 km ao norte de Foz do Iguaçu). Em seu consultório, armazenava armas desviadas do Exército. Antes de ser preso, em outubro de 1968, ele conseguiu jogar num rio as armas e demais provas que o ligavam à guerrilha. Acabou libertado.
A iniciativa das buscas também está sendo comemorada por dois paraguaios e um argentino. Junto com um terceiro paraguaio –Alejandro Stumpfs–, Rodolfo Mongelos, Aníbal Abbate Soley e Cesar Cabral, que viviam exilados em Foz do Iguaçu, foram sequestrados por homens do Exército brasileiro, em dezembro de 1974. O objetivo era entregá-los ao governo paraguaio, que também vivia uma ditadura comandada pelo general Alfredo Stroessner.
Os quatro eram acusados de pertencer a um movimento de opositores no exílio que estaria tramando um plano para matar Stroessner –o que negam. Depois de permanecer 24 dias detido em um aparelho do Exército em Goiás, o grupo foi libertado. A justificativa aceita até hoje é que o governo brasileiro abortou o plano de ‘‘extraditá-los’’ devido à pressão que o caso gerou.
Até o papa Paulo 6º condenou a detenção dos quatro, que eram empresários em Foz do Iguaçu. O sequestro é considerado uma das primeiras ações da Operação Condor, plano integrado de combate a opositores que uniu seis ditaduras latino-americanas entre os anos 70 e 80: Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile e Bolívia.
‘‘Graças à época democrática que vivemos, está sendo possível investigar e esclarecer o passado, aquela luta de guerra fria que nunca veio à tona’’, avaliou Rodolfo Mongelos, hoje com 71 anos e dono de uma gráfica em Curitiba. ‘‘Acho muito importante esclarecer essa situação em toda a América Latina’’, completou Mongelos, que tem mais de 40 companheiros desaparecidos na Argentina durante a repressão militar.
Aníbal Abbate Soley, 70 anos, que ainda vive em Foz, onde é dono de uma exportadora, o trabalho ‘‘trará à luz tudo que está no anonimato’’. Cesar Cabral, 58 anos, que vive em Foz e tem uma fábrica de cigarros na cidade paraguaia de Hernandarias, acredita que o momento não é de vingança, mas a verdade precisa ser restabelecida.
‘‘Não se trata hoje de procurar culpados. Houve um conflito onde a maior vítima foi a verdade.’’ Ele disse também que a eventual localização das ossadas poderá ‘‘honrar a memória desses companheiros’’.

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