Expedição encontra corpo de pioneiro do Everest
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quarta-feira, 26 de maio de 1999
Por Jerry Adler, da Newsweek (assinatura obrigatória) 
Nepal (AE-NEWSWEEK) - Ele deve ter morrido quase na hora do pôr-do-sol ou mesmo depois porque havia tirado os óculos de proteção, guardando-os no bolso. A pele extraordinariamente branca de suas costas estava exposta nos pontos onde o vento havia arrancado suas roupas, sete camadas de algodão e lã. Com base nas evidências, deduz-se que George Mallory, o primeiro homem a tentar chegar ao cume do Monte Everest, morreu em consequência de uma queda e seu corpo ficou algumas centenas de metros abaixo do pico.
A surpreendente descoberta do cadáver de Mallory responde a uma pergunta sobre o que aconteceu depois que ele e Andrew Irvine desapareceram entre as nuvens, em um dia de junho de 1924. Se já estava escurecendo, ele quase com certeza caiu na descida, ao voltar. Mas isso desperta uma segunda pergunta, ainda não respondida: antes de começar a voltar, Mallory teria chegado ao cume?
Entre os montanhistas, resolver esse enigma seria como encontrar o manuscrito de "Otelo" em um envelope com o endereço de resposta para Shakespeare. Assim, na manhã de 1.º de maio, cinco alpinistas americanos espalharam-se em forma de leque em uma rampa íngreme e rochosa, a cerca de oito mil metros de altitude. Eles faziam parte de uma equipe de oito dos principais alpinistas do mundo e tinham esperanças de encontrar os restos de Mallory e Irvine, assim como de determinar se eles haviam chegado ao cume antes de morrer - 29 anos antes de Sir Edmund Hillary e Tenzing Norgay terem feito a primeira ascensão reconhecida, em 1953.
Uma expedição semelhante procurou Mallory em 1986, sem sucesso. Mas, desta vez, a sorte estava do lado dos pesquisadores. Como líder da expedição, Eric Simonson, declarou à Newsweek falando do acampamento-base: "Havia pouca neve de inverno e as temperaturas estavam moderadas, pelos padrões do Everest. Por isso, áreas que normalmente ficam cobertas estavam expostas". Pelos padrões do Everest, "moderada" significa temperatura bem abaixo de zero, com ventos de 48 quilômetros por hora ou mais.
Isso na face norte, ou face tibetana, do Everest e não na rota de Hillary, usada para subir à cumeada sudoeste onde cinco alpinistas morreram durante a famosa tempestade de 1996. Em comparação com a rota sudoeste, que vem do Nepal, disse Simonson
a face norte evita a passagem perigosa sob os blocos de gelo vacilantes de Khumbu Icefall. Contudo, essa via requer um pouco mais de perícia em alpinismo e permanência mais longa a uma altitude superior a 7.600 metros. Entretanto, na opinião do historiador definitivo do Everest, Walt Unsworth, o próprio Mallory era um alpinista competente, sem chegar a ser extraordinário.
"Ele era experiente, na verdade, era veterano de duas expedições britânicas anteriores, além de ser simpático, carismático e atlético. Mas estava com uns 38 anos, era casado, com três filhos e tinha um pequeno cargo em Cambridge. Quando o British Alpine Club o convidou para ser o segundo homem no comando de sua equipe de oito pessoas, Mallory quase rejeitou o convite", disse.
De acordo com Unsworth, Mallory fez o seguinte comentário a um amigo: "isso vai ser muito mais parecido com guerra do que com montanhismo (ele havia combatido na guerra). Eu não espero voltar". "Entretanto, ele sentia a irresistível atração do Everest. Sua confissão, feita a um repórter americano, de que ele escalou o Everest porque o monte está lá, tornou-se famosa", completou Unsworth. Tal observação mostrou sua profunda afinidade espiritual com o montanhismo ou (como alegaram seus amigos), refletiu sua exasperação pelo fato de lhe fazerem a mesma pergunta inúmeras vezes.
O companheiro que ele escolheu, Irvine, tinha apenas 22 anos de idade, era alpinsita novato mas excepcionalmente forte e com excelente condicionamento físico. Irvine também era perito nas novas tecnologias de oxigênio engarrafado e de fechos de correr (zippers). Mallory, da escola antiga, preferia fechar sua parka (anorak) com os velhos e bons botões.
A expedição, como a maioria das que se faziam naquela época, dependeu dos indispensáveis carregadores sherpas, mas Mallory não tinha dúvidas quanto à raça que produzia os melhores montanhistas. Quando as condições se tornaram difíceis, ele escreveu as seguintes linhas em um despacho citado pelo The New York Times: "o esplêndido companheiro que transportava a sua carga com tanto orgulhoso converteu-se em uma verdadeira criança - uma criança pela qual o funcionário britânico era responsável em todos os momentos".
Na manhã de 8 de junho os dois partiram de um acampamento situado a pouco mais de oito mil metros de altitude, onde haviam passado a noite sozinhos. Pouco depois das 13h, outro membro de sua expedição, Noel Odell, avistou, de um ponto situado abaixo, duas figuras distantes escalando uma saliência rochosa. Se aquele era o Segundo Passo, uma parede de rocha e gelo situada muito perto do cume, era quase certo que eles o atingiriam naquele dia.
Mas Odell não tinha certeza sobre o que via. Os alpinistas poderiam estar no Primeiro Passo, situado bem mais abaixo, e, nesse caso, o Segundo Passo ainda estaria muito acima deles. Enquanto Odell observava, as figuras desapareceram dentro de uma nuvem. Quando o tempo clareou, horas depois, não foi possível ver Mallory ou Irvine em parte alguma.
Nove anos depois outra expedição inglesa recuperou uma machadinha de quebrar gelo - que presumivelmente pertencera a Irvine - abaixo do Primeiro Passo. Mas não foram encontrados sinais do cadáver de nenhum dos dois. Isso até 1975, quando um alpinista chinês viu o que descreveu como "um velho inglês morto", perto do Acampamento VI de sua expedição.
Infelizmente, ele guardou essa informação para si durante três anos, antes de contar o fato a um alpinista japonês - e ele próprio morreu no dia seguinte, em uma avalanche, levando consigo o conhecimento da localização exata dos cadáveres. Entretanto, essa informação foi suficiente para que Simonson e sua equipe fossem em frente, depois de ter uma idéia da localização do acampamento dos chineses.
O alpinista Conrad Anker, patrocinador de uma expedição, relatou, no site Mountain None, da Web (www.mountainzone.com.): "Olhei para o leste (e depois) vi uma mancha branca, que era mais branca do que a rocha...e também mais branca do que a neve. George estava deitado de bruços", informou Simonson, "a cabeça na direção do alto da montanha, braços esticados, como uma estátua congelada".
Anker enviou uma mensagem em código pelo seu rádio - havia dezenas de alpinistas na montanha e ele não queria atrair um estouro. Os membros de sua equipe uniram-se a ele e começaram a cavar cuidadosamente na sepultura gelada.
Durante todo o tempo os alpinistas esperavam encontrar Irvine
cuja machadinha de quebrar gelo fora encontrada nas proximidades. Quando apareceu uma etiqueta com o nome de Mallory
eles se perguntaram por que Irvine estaria usando a camisa de Mallory. "De repente percebemos", relatou o alpinista Dave Hahn, no site Mountain Zone, "...estávamos na presença do próprio George Leigh Mallory, O homem da montanha".
O corpo evidentemente havia rolado uma certa distância. Uma perna estava fraturada na altura do fim do cano da bota e ele estava preso numa corda rompida - presumivelmente Irvine estava no outro extremo da corda. Os alpinistas recuperaram alguns objetos pessoais, inclusive cartas, e colheram uma amostra de tecido para análise do DNA.
Depois, com pedaços de rocha laboriosamente reunidos na encosta, enterraram Mallory onde ele jazia - no seu amado Everest. Contudo, eles não descobriram evidências de que Mallory tivesse atingido o topo da montanha, algo como um caderno de anotações ou mesmo sua câmara fotográfica, que poderia conter imagens recuperáveis de uma foto tirada no cume há 75 anos.
Tal descoberta poderia ser um fato politicamente delicado, já que a China alega, como uma questão de honra nacional, ser o país que fez a primeira escalada registrada ao topo do Everest pela rota do norte, em 1960. Se Mallory tivesse feito a escalada até o pico em 1924, comentou o Diário Juvenil de Pequim, na semana passada, "a história poderia ser reescrita". E talvez ainda o seja.
Em 1960 o Segundo Passo foi conquistado por um alpinista que encontrou pegadas nas rochas com seus pés descalços, sacrificando seus dedos à ação do gelo. Os alpinistas modernos usam uma escada, instalada lá em 1975. No final de maio, Anker tinha planos de escalar o Segundo passo como Mallory teria feito
sem escada e sem cordas, só para ver se isso poderia ser feito. Seus colegas alpinistas voltariam depois a procurar por Irvine à altitude de pouco mais de 8.000 metros.
"Essa expedição", esclareceu Simonson, "não é só para procurar cadáveres. Queremos que seja uma celebração do que aqueles dois fizeram há 75 anos, usando botas de couro e jaquetas de tweed". Naturalmente, o que eles fizeram não teve significado prático nem naquela época.
O próprio Hillary, com toda uma vida de honrarias atrás de si
declarou, na metade de maio, que gostaria que Mallory tivesse chegado ao cume (porém acha pouco provável que ele o tenha feito). Mas quem dentre nós, imaginando Mallory morrendo abraçado à montanha, pode deixar de pensar: no momento em que ele caiu, estava olhando para baixo, desapontado - ou com ar de triunfo para o céu que começava a escurecer?


