Expectativa de vida aumenta três meses no PR
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terça-feira, 11 de dezembro de 2018
Isabela Fleischmann<br>Reportagem Local 
A cada ano, cresce o número de idosos no País. Mais uma evidência disso é a tábua de mortalidade, publicação anual do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) desde 1999, que mostrou que os paranaenses tiveram três meses e 18 dias acrescidos à expectativa de vida no ano passado, em relação a 2016. De 77,1, a esperança de vida ao nascer do Estado saltou para 77,4 anos, superior à média nacional.
A pesquisa refere-se ao primeiro dia de julho do ano anterior e mostra a expectativa de vida até os 80 anos. O estudo é usado como um dos parâmetros nos cálculos da Previdência Social.
Em todo o País, o aumento foi de três meses e 11 dias em comparação com 2016, com o índice chegando a 76 anos.
Para os homens, o aumento foi de três meses e 14 dias (72,2 para 72,5) e para as mulheres de dois meses e 26 dias (79,4 para 79,6). De acordo com a tábua de mortalidade, se comparado o ano de 2017 com 1940, o País teve um acréscimo de 30,5 anos de expectativa de vida.
Em 2017, a maior expectativa de vida foi de Santa Catarina, com 79,4 anos, seguida do Espírito Santo (78,5), Distrito Federal (78,4) e São Paulo (também com 78,4).
Na outra ponta, está o Maranhão, com a menor expectativa de vida, de 70,9, seguido do Piauí (71,2), Rondônia (71,5) e Roraima (71,8).
Para Marcio Minamiguchi, pesquisador do IBGE, os números "refletem uma tendência de crescimento paulatino da esperança de vida que pode ser observada de forma geral pelo mundo todo". "É um processo gradual mesmo, que a maior parte dos países tem vivenciado, uns mais, outros menos", explicou. E isso tem relação com o desenvolvimento de cada localidade. A maior esperança de vida ao nascer pertence ao Japão (dados de 2015), com 83,7 anos.
"Se for pensar no mundo todo, os países mais desenvolvidos apresentam as maiores esperanças de vida, ao passo que os países mais pobres têm níveis de mortalidade mais altos", complementou.
Quanto menores os índices de mortalidade, maior a esperança de vida ao nascer. A região Sul apresenta expectativas de vida mais altas e mais baixos índices de mortalidade infantil. Mas, para Minamiguchi, a taxa de fecundidade, número de filhos por mulher, é o que tem mais impacto na esperança de vida, mais até do que a mortalidade. "A questão do envelhecimento tem mais a ver com o fato de ter começado uma transição da fecundidade, das mulheres terem reduzido a quantidade de filhos", explicou.
O pesquisador acrescentou que, embora hoje a taxa de filhos por mulher do Nordeste não seja tão distante do índice observado no Sul, os Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná diminuíram a taxa de fecundidade antes dos anos 80, o que reflete nos números da esperança de vida hoje. "Os primeiros Estados que passaram por esse processo foram Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro e, posteriormente, outros Estados do Sul e Sudeste."
MORTALIDADE
Segundo o IBGE, a atual probabilidade de um recém-nascido do sexo masculino não completar o primeiro ano de vida no Brasil é 13,8 para cada mil nascidos vivos. Já quanto às meninas, o número é de 11,8 para cada mil. Para ambos os sexos, a taxa de mortalidade foi de 12,8 para cada mil recém-nascidos. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a meta é que os países reduzam a mortalidade neonatal para pelo menos 12 por mil nascidos vivos até 2030.
A mortalidade infantil para crianças menores do que cinco anos caiu, de acordo com o IBGE. Em 2016, para cada mil crianças, 15,5 não chegavam até os cinco anos. No ano passado, essa taxa caiu 3,9% se comparada a 2016 (14,9 por mil).
O Espírito Santo é o Estado com menor taxa de mortalidade infantil, com 8,4 óbitos de crianças menores de um ano para cada mil nascidos vivos. O Amapá, com a situação mais grave, tem 23 mortes para cada mil. O Maranhão, Estado com menor esperança de vida, tem uma mortalidade infantil acima de 20 óbitos a cada mil (20,3), segundo o IBGE.
O Paraná tem, segundo dados da Sesa (Secretaria de Estado da Saúde), uma taxa de mortalidade infantil de 10,3 a cada mil nascidos vivos. Os dados são de 2017. Mas a projeção da tábua de mortalidade para o período de 2010-2060 aponta que a probabilidade de um recém-nascido não completar um ano no Estado é de 8,9 a cada mil, o que coloca o Paraná em uma situação de empate com Santa Catarina, ostentando a segunda menor taxa de mortalidade infantil.
Mesmo Espírito Santo, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo - todos com taxas de mortalidade abaixo de 10 a cada mil - estão longe do quadro observado nos países mais desenvolvidos, de acordo com o estudo. Na Suécia, a taxa de mortalidade infantil para crianças menores do que cinco anos é de 2,6 óbitos para cada mil nascidos vivos.
O IBGE ressalta, todavia, que entre 1940 e 2017 a mortalidade neonatal no Brasil diminuiu 91,3% e a mortalidade de crianças de um a quatro anos caiu 97,2%.
Minamiguchi também comparou que em 1950 um jovem de 20 anos tinha menos de 50% de chance de atingir os 65 anos de idade e em 2017 essa porcentagem saltou para 80%. "Temos um contexto bastante diferenciado e isso muda bastante nossa perspectiva de pensar a respeito de nós mesmos e do futuro", alertou.
Ainda pela tábua da mortalidade, o IBGE relata que, no ano passado, um homem de 20 anos tinha 4,5 vezes mais chance de não completar 25 anos do que uma mulher da mesma idade.
Novos padrões, novas perspectivas
A redução dos níveis de mortalidade e o aumento da esperança de vida têm também um aspecto relevante associado à maneira cultural de se pensar no planejamento para o futuro, conforme explicou o pesquisador do IBGE Marcio Minamiguchi. "A própria forma de nós mesmos lidarmos com nosso futuro, pensando no contexto de esperança de vida maior, é diferente de pensar no nosso próprio ciclo de vida em um contexto de esperança de vida pequena. Se você vive num contexto em que tem poucas chances de chegar a se tornar idoso, sua perspectiva de vida muda", pontuou.
Minamiguchi argumentou que os jovens de hoje sabem que se tornarão idosos, como algo dado, "não pensam que vão morrer cedo, seria algo como uma tragédia". Ao passo que, na década de 50, por exemplo, tornar-se idoso era incógnita.
"Se a gente pensa em 1950, a probabilidade de uma pessoa de 20 anos de idade chegar aos seus 65 anos de idade era menos de 50%. Hoje em dia já está em mais de 80%, então você tem um contexto bastante diferenciado e isso muda bastante nossa perspectiva de pensar a respeito de nós mesmos, é desafiador, porque a perspectiva de longo prazo acaba mudando as formas de pensar nas possibilidades de vida", opinou.
Contudo, os jovens Lohanna Camargo, 22, e Vinícius Pratas, 23, contaram à reportagem que não estão se planejando para a terceira idade. "Não costumamos poupar, nem fazer exercício, até estávamos comentando que deveríamos", disse a estudante de psicologia.

Já João Pedro, 86, exibe vitalidade. "Quando fui batizado, meu pai esqueceu de por o sobrenome Freitas, ficou só João Pedro, Pedro virou sobrenome", esclareceu.
Pedro disse que costumeiramente faz caminhadas e atualmente trabalha cortando cabelo e barba em domicílios. "A médica disse para mim que eu tenho que fazer caminhada porque eu trabalhei muito na roça. Se eu ficar parado, eu travo. Leio também. Graças a Deus, só não mato nem roubo, mas de tudo faço um pouquinho", brincou.

O hoje barbeiro trabalhou 55 anos na roça. "Na enxada", acrescentou. "Eu cheguei a Londrina e tive uma lanchonete, trabalhei uns tempos, fechei e agora eu faço cabelo e barba na casa das pessoas. A gente tem que mexer o corpo, né? Não pode ficar parado", afirmou. Avô de 20 netos, o mineiro, que deixou seu Estado natal com 14 anos, garantiu: "Minha família é grande. Para reunir todo mundo, sobrinhos, filhos, precisa de um salão para 300 pessoas", brincou. Pedro mora hoje com um filho divorciado. "O que eu fiz para meus filhos, eles estão fazendo para mim agora."
"Graças a Deus vou vivendo. Na nossa vida, temos que pedir a Deus e não abusar da saúde. Parei com o cigarro e com a pinga faz 28 anos. A médica disse para eu parar, parei e estou aqui, vivendo", contou.
Assim como Pedro, Lúcia Nolasco, 78, disse que já está "ganhando" porque sua idade é superior à média da esperança de vida no Brasil. "Acima da média já, graças a Deus. Deus me renova todo dia, com saúde, minhas forças. Faço pilates, fisioterapia, não tenho preguiça de nada, sou muito de bem com a vida", destacou. "Sou mais mineira do que brasileira", frisou. Artista plástica, Nolasco faz quadros. "Hoje pinto pouco porque não tenho retorno e o material é muito caro", emendou.
Usualmente, ela encontra sua amiga Natália Juarez, 80, no centro da cidade. "Ela conheceu minha mãe", lembrou Juarez. "Tenho 80 anos. Bem vividos, faço atividade física, fisioterapia e caminhada", comentou. Nolasco acrescentou que a amiga tem "um trabalho lindíssimo de flores para enfeitar roupa".
Juarez trabalhou a vida inteira com flores. "Arranjo de noiva, tudo eu fazia." É paulista, mas veio para Londrina com um ano de idade. (I.F.)
Mudança do conceito de idoso exige preparação e cuidados geriátricos
A Itália alterou o conceito de idoso. Lá, um dos países com maior esperança de vida do mundo, a terceira idade passou de 65 para 75 anos. A OMS, todavia, coloca como idosas todas as pessoas a partir de 65 anos em países desenvolvidos. Já para países em desenvolvimento, como o Brasil, são consideradas idosas as pessoas a partir de 60 anos.
O Brasil tem passado por uma transição demográfica acelerada. Segundo a SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia), o País tem cerca de 30 milhões de idosos hoje, e a expectativa é que atinja os 73 milhões até 2060.
O presidente da seção estadual da SBGG no Paraná, Vitor Last Pintarelli, acrescentou que é necessária a adoção de um conjunto de medidas de adaptação a essa nova realidade, como uma melhor formação dos médicos para lidar com as características da população idosa: "É necessário maior número de profissionais especializados na área de geriatria e da gerontologia".
Pintarelli acredita que as medidas de prevenção têm de ser tomadas também para a população mais jovem, que projeta maior expectativa de vida. "Começa desde a infância, com a vacinação, a orientação para uma alimentação saudável, de um estilo de vida saudável, são medidas que vão refletir no futuro em uma melhor condição de saúde para os idosos das próximas gerações."
Para Juliano Schmidt Gevaerd, superintendente de atenção à saúde do idoso da Sesa, o envelhecimento é uma tendência nacional e pode ser observado com facilidade no Paraná. "É necessário que tenhamos resposta, porque as demandas dessa população mais envelhecida são completamente diferentes das demandas da atenção materna-infantil, uma vez que são pessoas que em geral têm condições crônicas de saúde", lembrou.
Questões relacionadas à hipertensão e ao diabetes são quadros característicos do processo de envelhecimento. Gevaerd garantiu que a Sesa tem trabalhado fortemente a rede de atenção à saúde do idoso. "Nós trabalhamos com uma proposta de estratificação do risco do idoso. Porque o processo de envelhecimento por si só não é uma doença, mas as pessoas têm riscos diferentes quando envelhecem, em relação à autonomia, em relação às atividades da vida diária", explicou.
A metodologia da estratificação de risco é baseada no conhecimento de que há idosos com saúde mais robusta e outros fragilizados. Para a Sesa, identificar essa fragilidade e ter planos de acompanhamento conforme o risco são ações essenciais. "É claro que estamos preparados para absorver essa demanda de idosos. Isso exige um incremento das ações de saúde, porque é um perfil populacional que vem se modificando no nosso país e no nosso Estado nas últimas décadas. Temos uma estratégia de estratificação de risco, prevenção ao câncer e estímulo de hábitos saudáveis para se ter um envelhecimento saudável", alegou.
A Secretaria Nacional de Promoção e Proteção dos Direitos da Pessoa Idosa do MDH (Ministério dos Direitos Humanos) elaborou um projeto de estratégias de educação financeira para a prevenção e redução do endividamento, na perspectiva da promoção da cidadania e dignidade às pessoas idosas. "A meta é qualificar 27 mil facilitadores estaduais e 1,4 mil municipais, com a previsão de atingir com a capacitação 300 mil pessoas idosas de baixa renda, a partir das tecnologias sociais de educação financeira desenvolvidas", contou Juliane Medeiros Moraes, coordenadora geral do MDH.
Conforme Medeiros, é senso comum que o poder público não está absolutamente preparado para atender as carências nesta área. "Os desafios começam pelos projetos urbanísticos de nossas cidades, que não estão preparados para a circulação de pessoas idosas", acrescentou.


