Êxodo de indústrias argentinas ao Brasil se acelera
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de janeiro de 2000
Por Ariel Palacios, especial para a AE 
Buenos Aires, 24 (AE) - Decepcionadas com o tratamento governamental em seu país e queda na demanda, as indústrias argentinas continuam procurando a "Terra Prometida" no Brasil. Segundo um relatório da Uniâo Industrial Argentina (UIA), desde janeiro do ano passado uma centena de empresas mudou-se parcial ou completamente ao principal sócio do Mercosul. Elas emigram ao Brasil esperando subsídios, vantagens tributárias e um mercado seis vezes maior que o argentino. Além disso, descobriram um filão: produzir barato no Brasil e vender aos caros preços costumeiros da Argentina.
A partida das indústrias está exasperando sindicatos e políticos: a UIA calcula que por causa do êxodo já foram perdidos ao redor de 10 mil postos de trabalho. Nos últimos três meses, passaram para o Brasil cerca de 30 empresas, entre elas, 16 do setor de máquinas agrícolas.
Grande parte das empresas emigradas são do setor de auto-peças, como a Delhi, Magnetti Marelli, e a Valeo. Também mudaram-se de forma parcial ao Brasil empresas de pneus como a Pirelli e a Goodyear. No setor de alimentos, a Socma, do poderoso Grupo Macri, possui hoje mais investimentos no Brasil do que em seu país de origem. Além dela, a Cica, que fechou sua fábrica de processamento de tomates. Também emigraram empresas do setor de calçados e têxteis.
Entre as mais recentes que anunciaram sua partida está a empresa madeireira MBM, instalada na província de Misiones, no nordeste argentino, a poucos quilômetros da fronteira com o Brasil. Adquirida no ano passado pelo grupo italiano Nettis Impianti, decidiu reduzir gastos por causa da queda na demanda, apesar de ter investido US$ 1 milhão em equipamentos recentemente. A solução encontrada foi a de mudar-se ao município de São Bento, em Santa Catarina.
Entre as vantagens encontradas pelos italianos no Brasil estão os salários mais baixos: um operário argentino do setor recebe US$ 600 mensais, enquanto que seu colega brasileiro não passa dos US$ 300. Além disso, o envio da madeira até o porto mais próximo na Argentina triplica o custo do envio pelos portos do sul do Brasil. Com a mudança da MBM ao outro lado da fronteira serão eliminados na Argentina 350 empregos diretos, e outros 650 indiretos.
As indústrias gráficas também estão de malas prontas para o Brasil. Segundo Juan Carlos Sacco, presidente da Faiga, a federação argentina do setor, a produção caiu 30% em 1999, em relação a 1998, e não existem expectativas que este ano a situação melhore. Sacco sustenta que o setor já se modernizou, e acusa os bancos de não estimulares a indústria, pela falta de créditos. Segundo ele, "uma dúzia de empresas gráficas argentinas estão mudando-se para o Brasil ou pelo menos tem planos para isso". A própria empresa da qual Sacco é o vice-presidente, a Multilabel, vai inaugurar uma fábrica no mês de março em São Paulo. O investimento no Brasil é de US$ 3 milhões.
Outra empresa que mudou os planos e optou pelo Brasil é a Renault, que não instalará mais na cidade de Córdoba sua linha de produção da "van" de carga Master. "Trata-se de uma modificação da estratégia da empresa devido ao atual contexto de indefinição sobre o regime comum automotivo entre a Argentina e o Brasil", sustentou Luis Cagliari, porta-voz da empresa.


