"Êxodo" argentino pode sinalizar novo modelo industrial no Mercosul Do enviado especial Vladimir Goitia
"Êxodo" argentino pode sinalizar novo modelo industrial no Mercosul Do enviado especial Vladimir Goitia9/Mar, 15:00 Buenos Aires, 09 (AE) - A mudança de indústrias argentinas para o Brasil, que vem sendo classificada de êxodo por um reduzido número de representantes setoriais do país, pode ser o início do surgimento de um novo modelo industrial para o Mercosul. Embora não existam ainda indícios palpáveis sobre isso e muito menos propostas firmes dos governos dos países membros do bloco sobre o assunto, o eventual nascimento desse modelo vem provocando temores e dores de cabeça ao governo Fernando de la Rúa e ainda mais à União Industrial Argentina (UIA), a CNI argentina. Em entrevista à revista "Época" desta semana, o presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que "o futuro de seu principal parceiro no Mercosul está no agribusiness e o do Brasil na economia industrial e nos serviços". Essas declarações mostram que o Brasil vem trilhando uma nova linha de política industrial para o Mercosul, na qual os Estados membros precisariam iniciar o caminho da especialização, ou do fortalecimento de seus setores produtivos mais competitivos. A afirmação do presidente brasileiro, no entanto, não teve e não deve ter a médio prazo ressonância alguma no governo argentino. O presidente Fernando de la Rúa declarou no início desta semana que a Argentina continuará a incentivar a sua indústria. De la Rúa ratificou, mais uma vez, a necessidade de relançar o Mercosul nas bases do equilíbrio e da equidade. Interlocutores do primeiro escalão do governo De la Rúa disseram à Agencia Estado que a Argentina é competitiva em vários setores produtivos com alto valor agregado, razão pela qual a afirmação de FHC teria sido "infeliz", principalmente no contexto da relação entre os dois países. Os mesmos interlocutores afirmaram que o governo argentino está disposto a retomar a discussão política dos problemas bilaterais para evitar uma nova fase de conflitos entre os dois países por causa, também, da fuga de empresas argentinas em direção a Estados brasileiros que vêm oferecendo significativas vantagens competitivas -fiscais e financiamentos mais baratos. A esse fato soma-se ainda a desvalorização do real em janeiro do ano passado, que teria provocado perdas de nada menos do que US$ 2,2 bilhões nas exportações argentinas em 99. Em recente informe encaminhado ao governo, a União Industrial Argentina afirma que, no ano passado, migraram para o Brasil mais de 100 empresas, atraídas pelas vantagens competitivas geradas ou decorrentes da guerra fiscal entre os governos estaduais. A UIA afirma ainda que, desse número, pelo menos 70 são médias e grandes empresas que transferiram, de forma total ou parcial, as suas unidades industriais. A embaixada do Brasil em Buenos Aires, no entanto, afirma que a esse número não passa de 30 empresas. A maioria seria de empresas de pequeno e médio porte adquiridas por multinacionais que iniciaram processos de restruturação no Mercosul. Verdade ou não, o certo é que essa transferência de empresas teria provocado a perda de 10 mil a 25 mil postos de trabalho no país. "Além do ganho de competitividade de cerca de 35%, graças a desvalorização do real, e do tipo de câmbio argentino, atado ao dólar pela lei de conversibilidade, o Brasil ainda oferece todo tipo de subsídios ficais e financeiros para atrair empresas argentinas", acusa a UIA. A pressão de alguns setores produtivos argentinos é tão grande que a cúpula da entidade declarou que a UIA apoiará o Mercosul, porém, sempre que traga benefícios equitativos para seus membros. No momento, o governo argentino prefere não entrar nessa briga de declarações contra o Brasil e tenta suportar, ao máximo as crescentes pressões de setores menos competitivos do país. A secretária (ministra) de Indústria e Comércio, Débora Giorgi, por exemplo, recusa-se a falar sobre esses assuntos com a imprensa. Uma pessoa muito próxima da secretária disse à Agência Estado que, no momento, o Brasil e a Argentina vêm mantendo negociações, algumas delas muito delicadas, sobre as quais ela preferiria não comentar. RESTRUTURAÇÃO - A forte queda da demanda interna e o excesso da capacidade instalada na Argentina é uma das explicações dadas à restruturação empreendida por algumas multinacionais do setor de auto-peças. De acordo com levantamentos da ADEFA (Associação de Fabricantes Automotores), as montadoras argentinas fabricaram no ano passado 50% menos veículos do que 98, quando chegaram a produzir 458 mil unidades. A queda em alguns casos foi assustadora. O modelo Siena, da Fiat por exemplo caiu 221% e o Silverado, da General Motors, 345%, segundo a ADEFA. A fabricação desses modelos acabou sendo transferida para o Brasil. Neste caso, as províncias mais afetadas foram Buenos Aires e Córdoba, as mais industrializadas do país. E que concentram 55,4% e 37%, respectivamente, da produção do setor automobilístico argentino. Embora não exista nenhum dado oficial sobre o número de empresas que teriam transferido sua produção para o Brasil, alguns analistas temem que as estatísticas divulgadas por um ou outro setor produtivo argentino na imprensa se transformem em um instrumento de pressão de grupos nacionalistas e conservadores. O economista Roberto Lavgna, acredita que existem dois setores de risco para o Mercosul, tanto no Brasil como na Argentina. Na Argentina, trata-se de um setor de empresários que sempre estiveram a favor de um alinhamento com os Estados Unidos porque acreditam que é melhor ser sócio de países ricos do que de pobres. Já no Brasil existem os que acreditam que o País não pode renunciar a um determinado grau de autonomia em troca de algum tipo de parceira. De acordo com o economista, esses dois grupos "são capazes de provocar situações de crise, embora sem o objetivo de interromper o processo de integração regional, já que os interesses econômicos e comerciais ainda são suficientemente fortes para isso". COMPETITIVIDADE - Independentemente das posições e pressões setoriais, a grande discussão na Argentina hoje é o problema de sua competitividade. Até a desvalorização do real em janeiro do ano passado, a falta de competitividade da economia argentina parecia estar disfarçada. A Argentina exportava até então, quase tudo que o Brasil podia absorver, aproveitando-se da preferência comercial e da proximidade geográfica. Com a desvalorização do real, os preços dos produtos brasileiros (em dólares), ficaram 35% mais baratos na Argentina, deixando evidente que produzir no Brasil a custos mais baixos e, depois, vendê-los no mercado argentino a preços em pesos (dólares) eram mais convenientes. É aí que está o dilema argentino: enquanto o governo De la Rúa não reduzir o custo de produção (mão-de-obra, taxa de juros, preço dos serviços, transportes, telecomunicações, etc) a Argentina terá graves dificuldades para competir. O governo De la Rúa vem redobrando esforços para encontrar fórmulas que, primeiro, evitem o êxodo de empresas em direção ao Brasil e, depois, possam dotar as empresas de maior competitividade. No início do mês passado o governo lançou um pacote de medidas para incentivar a pequena e média empresa, reduzindo entre 10% e 15% as tarifas de gás e de energia elétrica. Concederá ainda créditos subsidiados e reduzirá os impostos sobre as exportações. Além disso, as micro, pequenas e médias empresas receberão US$ 100 por mês durante um ano para cada novo empregado contratado. Essas medidas, no entanto, parecem não ter satisfeito os empresários. Por isso, o governo deve lançar na próxima semana um pacote de medidas "pró-competitividade" e para mais uma vez tentar alavancar as exportações.





