SHARAMSHALA, Índia, 10 (AE-REUTERS) - Quarenta anos depois da revolta fracassada, os exilados do Tibete começam a ignorar seu líder espiritual que prega um movimento pacífico para recuperar sua nação perdida.
Muitos tibetanos residentes em Dharamshala, cidade do Himalaia no norte da Índia, dizem que já aguentaram muito sofrimento vivendo fora de sua pátria e precisam de métodos mais radicais para conseguir a liberdade.
"Não podemos deixar tudo a cargo de sua santidade, acho que todos precisam participar - e participar de modo bem ativo", disse Topden Tsering, que em seus 25 anos de vida nunca viu o Tibete.
Em 8 de março de 1959, o governo chinês decretou a lei marcial em Lhasa, então agitada capital do Tibete. Dois dias depois sua população se ergueu numa breve e inútil revolta contra os governantes comunistas da China.
Uma semana após o levante, o rei-deus espiritual dos tibetanos, o 14º dalai-lama, Tenzin Gyatso, fugiu liderando 80 mil refugiados, exilando-se na Índia. Milhares de outros partiram depois, e o fluxo de retirantes continua ainda hoje.
Hoje, o dalai-lama, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1989, marcou o 40º aniversário do levante fazendo um discurso especial em Dharamshala, onde salientou que é preciso levar avante a luta pacífica e evitar violência.
"São 40 anos de vida sem uma pátria - não podemos esperar por muitos outros aniversários como este", disse Tenzin Chokey, de 22 anos, que trabalha como voluntário para o governo tibetano no exílio.
Embora o dalai-lama pregue a paz e a não-violência, o constante influxo de refugiados tibetanos - cerca de 200 ou 300 por mês - e as comoventes histórias que eles contam fazem com que aumentem as pressões para que o líder espiritual seja mais firme.
À medida que histórias de tortura e molestamento no Tibete se acumulam, começa a surgir uma cisão na comunidade de refugiados - entre os que apóiam o "meio-termo" do dalai-lama em busca de autonomia sob o regime chinês e outros que querem nada menos que a independência.
"Sua santidade diz que 40 anos são um período muito curto na vida de uma nação, mas para nós é um longo tempo", disse Tenzin Cheodon, de 27 anos, que passou a vida toda na Índia. "Anseio por ver meu país."
Em junho do ano passado, a intervenção da polícia indiana forçou vários membros do Congresso da Juventude Tibetana (TYC em inglês) a suspender uma "greve de fome até a morte" em Nova Délhi, ocasião em que exigiriam a independência.
Um manifestante, Thupten Ngodup, de 50 anos, cometeu suicídio pondo fogo na roupa quando a polícia interveio.
Em janeiro, uma ala do TYC entrou à força na embaixada da China em Nova Délhi, provocando um protesto do Ministério chinês das Relações Exteriores. "Têm havido greves de fome e auto-imolações na Índia, têm havido explosões de bombas em Lhasa", declarou à Reuters o ministro do Interior do governo tibetano no exílio, Tashi Wangdi.
E acrescentou: "O apoio emocional à causa tibetana existe porque o dalai-lama escolheu a via da verdade e não-violência, e esta é a única via capaz de nos levar mais longe."

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