Exército não quer ONU em Roraima
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quarta-feira, 25 de março de 1998
Agência Estado 
France PressespecialistasOs argentinos trabalham em RR com 4 helicópteros e 120 homens A oferta de ajuda da Organização das Nações Unidas (ONU) para combater o incêndio em Roraima foi rejeitada pelos militares e aceita pelo governo. Para aparar arestas, o presidente Fernando Henrique Cardoso convocou para hoje, às 17h30, no Palácio do Planalto, em Brasília, uma reunião da Câmara de Relações Exteriores e Defesa Nacional (Creden). Por sugestão de assessores, preocupados com as consequências políticas e a repercussão internacional do desastre, Fernando Henrique deve visitar a região na próxima semana.
A decisão de fazer a reunião foi tomada horas depois de uma entrevista do comandante da Primeira Brigada de Infantaria de Selva, general Luiz Edmundo Carvalho, em que o oficial, chefe das operações de combate ao fogo, rejeitou a oferta da ONU. Ele argumentou que o Comando Militar da Amazônia dá toda a ajuda necessária às operações. Já recebemos cinco helicópteros, sendo três do Exército e dois da Força Aérea Brasileira, relatou. Mesmo sem saber o tipo de ajuda oferecido pela ONU, Carvalho foi categórico: Não preciso.
Apesar da oposição do general, o governo aceitou a ajuda da ONU. Segundo o porta-voz da Presidência, Sérgio Amaral, Carvalho teria sido vítima de um mal-entendido. Provavelmente houve equívoco, disse.
Existem duas possibilidades de ajuda da ONU: a ajuda de especialistas em combate a incêndios, que está sendo providenciada; outra foi um outro tipo de ajuda que chegou a ser mencionada pela imprensa que é o envio de capacetes verdes, batalhões especializados em incêndio, que não existem ainda, comentou Amaral, atribuindo a recusa do general à rejeição da idéia de ver capacetes verdes na Amazônia. O general Carvalho participará da reunião da Creden, no Planalto. Oficiais confirmam, porém, que o Exército é contra a ampliação da presença estrangeira na Amazônia e tem resistência à atuação de organismos internacionais na região. Eles argumentam que o Brasil tem que ter capacidade de resolver os problemas do País, de forma independente.
Nos 350 a 400 anos em que o Exército ocupa a área nunca houve incêndio semelhante, enfatizam os militares. As pessoas podem entender de outras coisas mas, de Amazônia, entendemos nós, adverte um dos oficiais consultados. Os militares lembram ainda que a região de floresta tropical úmida nunca pegou fogo e sofre agora principalmente por causa da baixa umidade, nunca registrada na região.
O argumento foi incorporado ao discurso oficial do governo. Existe um fato concreto que é uma mudança drástica do comportamento climático nesta região da Amazônia em decorrência do El Ni¤o, disse o porta-voz Sérgio Amaral. Ele não endossa, porém, as reivindicações dos militares de atuação autônoma na Amazônia. A posição do governo a respeito é a de que alguns países têm efetivamente mais experiência e mais tecnologia no combate ao incêndio em florestas, declarou. Toda ajuda internacional de especialistas, evidentemente coordenada pelo governo brasileiro, será bem recebida.
O Ministério das Relações Exteriores e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) já começaram a discutir a forma como se dará a ajuda da ONU, em reunião ontem à tarde, em Brasília, com o chefe do Departamento de Temas Especiais do Itamaraty, embaixador Antônio Augusto Dayrell de Lima, e representantes do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A ONU deverá organizar o envio de peritos a Roraima, para determinar o que falta para controlar a situação.


