Exército admite não ser capaz de garantir segurança em Timor
Dili, Timor Leste, 29 (AE-AP) - Apesar de os líderes dos grupos a favor da independência de Timor Leste e as milícia pró-Indonésia terem concordado hoje (29) em pôr fim à onda de violência para permitir a realização, amanhã, do referendo sobre o status do território, o Exército indonésio admitiu que é incapaz de garantir completamente a segurança na ex-colônia portuguesa em caso de uma sublevação.
A Indonésia havia-se comprometido a proteger a população timorense antes e depois da realização da consulta popular, contudo as forças de segurança, acusadas de apoiar as milícias pró-Jacarta, foram incapazes de controlar os ataques dos milicianos que deixaram dezenas de mortos desde o início do ano e fizeram com que mais de 60 mil pessoas deixassem suas casas.
Sob um acordo de paz negociado pelas Nações Unidas, as facções rivais concordaram em retirar seus homens armados das ruas, depor as armas e respeitar o resultado da votação. Contudo
acordos semelhantes já foram acertados anteriormente e acabaram não sendo cumpridos. Funcionários da ONU que organizam o referendo temem que muitos dos mais de 450 mil timorenses que se registraram não compareçam às urnas temendo represálias, apesar de que lhes foi assegurado que o voto será secreto.
O presidente da Indonésia, B. J. Habibie, exortou hoje os timorenses a se pronunciarem a favor do status de província indonésia para o território, mas com ampla autonomia. Apesar de Habibie, que assumiu o poder em maio após a renúncia do ditador Suharto, ter convocado o referendo, o governo indonésio teme que a independência do território faça com que outras províncias se rebelem e levem ao desmembramento do país.
Exercendo toda sua influência, a Igreja pediu hoje aos católicos, majoritários em Timor Leste, que dêem uma mostra de coragem e participem da votação que lhes permitirá escolher entre continuar com a Indonésia ou ser independentes. A Igreja Católica é a principal autoridade moral na ex-colônia portuguesa e para muitos analistas a força que permitiu à população conservar sua identidade depois de ter sido invadida em 1975 e anexada pela Indonésia em 1976.
No entanto, o bispo de Dili (capital de Timor) e Prêmio Nobel da Paz de 1996, Carlos Ximenes Belo, criticou hoje a ONU e o governo de Portugal porque atuaram "com muita pressa" para realizar o referendo. "Na minha opinião, o referendo deveria ser adiado, pois não há condições de paz e segurança no território", disse Ximenes Belo a uma emissora de rádio local. Ele reconheceu que agora nada pode ser feito, mas profetizou que
após a votação, se repetirão novos atos de violência.
Já o dirigente do Conselho Nacional da Resistência Timorense no exterior, José Ramos-Horta, que compartilhou com Ximenes Belo o Nobel da Paz, exortou hoje a reconciliação entre os timorenses e disse que os membros do Exército indonésio responsáveis pela violência no território devem ser levados à Justiça. "Os timorenses precisam da mesma coragem que eles tiveram para lutar contra a ocupação (pela Indonésia) para perdoar", disse Ramor-Horta à rádio TSF de Portugal desde Sydney, Austrália.





