Rio, 23 (AE) - Executivos do mercado financeiro defendem a adoção dos expurgos no sistema de metas de inflação, contrariando as preocupações do ministro da Fazenda, Pedro Malan
que afirma que o governo optou por um índice cheio para não ser acusado de manipular a inflação. "O governo deveria ter feito o expurgo antes", afirmou o economista-chefe do Banco Bozano Simonsen, André Lóes. Segundo ele, há inflação importada, como a do petróleo, e exportada, como a da soja, e sobre esses preços cotados em dólar a política monetária não tem poder algum. "O ideal seria publicar o índice com expurgo e sem expurgo", disse.
O economista-chefe do Chase Manhattan, Luís Fernando Lopes, concorda: o governo deve adotar o mais rápido possível o núcleo de inflação (core inflation). Ele prefere não chamar o sistema de expurgo, para que não seja associado a maus exemplos do passado. Lopes lembrou da época em que Delfim Netto era ministro da Fazenda, no início dos anos 70, e divulgava um Índice Geral de Preços (IGP) menor do que o real, trocando indexadores ou incluindo e excluindo bens e serviços. Em meados da década de 80, Dílson Funaro, à frente da economia, aumentava e restringia produtos da cesta para esconder o fracasso do Plano Cruzado.
A proposta do economista do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Fábio Giambiagi, é que em junho do ano que vem, quando anunciar a meta para 2002, o governo já avise que adotará o núcleo de inflação em 2003. "O governo deve preparar um histórico de cálculo da meta expurgada desde 94 e passar a divulgar o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) junto com uma meta mensal expurgada", explicou. "O core inflation pode ter 80% a 90% do IPCA", sugeriu. Gambiagi, entretanto, alerta que a desvalorização acentuada do real pode comprometer a meta de inflação.
Não havia outra opção, mas o cenário ainda está precário para o sucesso do sistema de metas no longo prazo, na opinião do economista Paulo Sidney Cota, chefe do Centro de Estatística de Preços do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV). "Há compressão de salários e preços, pressões por crescimento e emprego no curto prazo, desequilíbrio do setor público e da balança comercial", afirmou. "Por enquanto a inflação está reprimida por causa da recessão, mas quando o País começar a crescer os preços podem voltar a subir". Então, segundo ele, será hora de adotar o expurgo.
"Para limites mais altos de inflação, os índices atuais da economia atendem, mas em 2002, quando o governo tiver de atingir 4%, vai ter de pensar em um núcleo de inflação que acomode choques", declarou. A solução do diretor do Ibre, Antônio Carlos Porto Gonçalves, é não fazer exatamente um expurgo do IPCA ou de qualquer outra taxa, mas estabelecer uma cesta de produtos para compor o índice. "Pode-se incluir o câmbio e retirar produtos sazonais", recomendou.

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