Denver, Colorado, 27 (AE) - Em cinco anos, a transmissão de voz será grátis. Ou, pelo menos, será uma commodity baratíssima. É nisso que acredita, por exemplo, o vice-chairman da MCI WorldCom e CEO da UUNET, John Sidgmore. "A transmissão de voz será irrelevante, já que em 2003 a Internet responderá por mais de 90% de toda a infra-estrutura de comunicações no mundo, tornando-se a rede pública interativa por excelência", afirmou Sidgmore, na terça-feira. Ele foi uma das celebridades a abrir o New World Service Providers Summit (Cúpula dos Provedores de Serviço do Novo Mundo), evento de dois dias organizado pela Ziff-Davis em Denver, no Colorado, reunindo centenas de serviços
equipamento e software para redes públicas e privadas.
A UUNET, cujo faturamento Sidgmore elevou de US$ 7 milhões para US$ 300 milhões nos últimos três anos, é o maior provedor mundial de acesso à Internet, e é controlada pela WorldCom, que no ano passado comprou a MCI. O executivo também previu que "o modelo da radiodifusão está morto, porque o cliente quer escolher o que vê".
Com Sidgmore concorda o consultar Nick Lippis, uma das mais respeitadas autoridades no setor de redes. "A transmissão de voz caminha para ser um serviço gratuito e as redes de televisão abertas estão sendo cada vez mais esvaziadas de seu conteúdo jornalístico, e reduzidas a um conteúdo de puro entretenimento"
previu Lippis. Ele acredita que, "já no final de 1999, a demanda por comutação de circuitos telefônicos (em vez de comutação por protocolo Internet, ou IP, em inglês) vai cair feito um rochedo, e pelo menos cinco enormes companhias multinacionais vão instalar redes de voz pela Internet ainda no ano 2000".
A estimativa, diz ele, é que em 2005 haja um bilhão de usuários de telefonia convencional (contra os atuais 800 milhões), um bilhão de usuários de telefonia sem fio (contra os 200 milhões de hoje) e mais um bilhão de usuários de Internet. Ele garante que mais de 50% das 239 maiores empresas americanas e multinacionais terão redes privativas virtuais (conhecidas pela sigla em inglês VPN) em pelo menos alguns componentes de suas redes corporativas por volta de 2001. E acha que 40% delas vão adotar soluções de voz sobre IP (VoIP) na mesma ocasião.
Esse foi um dos principais temas de todo o encontro: telefonia via protocolo Internet. Lippis recomenda aos provedores de serviço Internet que, para ter sucesso nesse mercado, eles "sejam os primeiros em alguma coisa", qualquer coisa, desde que sejam os primeiros; implementem tecnologia de ponta em banda larga; e estendam seus serviços para além do simples transporte de informações, incluindo várias aplicações inovadoras permitidas pela comutação de pacotes IP. Velocidade, banda larga para transmissão de dados e criatividade, além de excelentes relações com o cliente (incluindo suporte e serviços) e customização a qualquer preço foram outras recomendações de diversos palestrantes. "Ésopo estava errado, a tartaruga vai perder", advertiu Lippis.
O prestigiado John Chambers, CEO da Cisco Systems, que nos últimos três anos sextuplicou seu faturamento (US$ 7,5 bilhões estimados para 1998), e conselheiro de Bill Clinton em política comercial, não divergiu. "Em duas ou três décadas, a economia da Internet vai mudar absolutamente tudo", disse ele. De fato, se o mercado de informática levou 20 anos para atingir US$ 80 bilhões de faturamento na era pré-PC e 15 anos para chegar a US$ 200 bilhões na era do PC, é certo que alcançará US$ 1,5 trilhão de faturamento mundial em 2005 - só em comércio eletrônico - na chamada era da Internet. Hoje, a Internet já tem mais capacidade de comutação que a rede pública de comutação telefônica no mundo, garante Lippis.
Mas as coisas não vão mudar tão rapidamente, garante a consultora Lillian Goleniewsky, presidente da Lido Organization, uma das mais reputadas organizações do mundo em treinamento na área de telecomunicações. Goleniewsky moderou um painel precisamente sobre o iminente "broadband boom" (ou a explosão de crescimento da banda larga, a "tubulação" para transmissão de dados em grande volume e em alta velocidade). Em seis ou sete anos, disse ela, o que se vai ver é o advento das redes multimídia, transmitindo voz, dados, imagem e texto simultâneamente e em alta velocidade.
"É por isso que as pessoas dizem que a voz será de graça, mas não será: ela apenas estará embutida em serviços muito mais amplos", explicou. Ela acredita que no ano 2000 o porcentual de redes transmitindo voz sobre IP será de no máximo 20% do universo de transmissão de voz. Gente como Lippis, Sidgmore e mesmo Chambers, acredita Goleniewsky, estão promovendo um conceito que beneficia seus negócios.
A palestra que fechou o encontro, no final da tarde de quarta-feira, sob o título "A última palavra é do cliente", parece ter confirmado o ponto de vista de Goleniewsky. Doug Crawford, diretor de planejamento de rede e telefonia na Kaiser Permanente, gigantesca empresa de seguro saúde nos Estados Unidos, com pelo menos US$ 20 milhões anuais para investir apenas em transmissão de voz, garantiu à desalentada platéia que a tecnologia disponível ainda não atende suas necessidades. "Eu preciso de banda larguíssima e de absoluta confiabilidade", explicou, relatando alguns episódios cômicos que viveu recentemente, ao testar novas tecnologias sem fio para uma das sedes da empresa. "De alguma forma, o sistema interferia com cadeiras de roda elétricas e, de repente, quando fizemos a primeira ligação, as cadeiras de roda enlouqueceram e saíram circulando pelo prédio", disse ele. A platéia riu, quase por delicadeza. Mas foi um final melancólico para o evento, embora ninguém pareça ter realmente perdido o entusiasmo. Afinal, não se pode desprezar a opinião de um executivo como Sidgmore, da MCI WorldCom.
Os provedores de serviço que vencerão nesse mercado, diz ele, "serão os que tiverem as melhores idéias de marketing e de tecnologia, os que dispuserem da melhor tecnologia de Internet, e sobretudo os que tiverem o executivo de melhor QI de Internet".
Podem parecer estranhas essas previsões na boca do vice-chairman de uma das maiores empresas de telecomunicações do mundo, onde cerca de 80% do faturamento ainda vem da transmissão de voz pelas vias convencionais, ainda que envelopadas nas tecnologias mais recentes. Mas a MCI WorldCom de há muito não tem todas as suas fichas nas telecomunicações convencionais. A WorldCom, que no ano passado comprou a MCI, fez mais de 69 aquisições de empresas nos últimos quatro anos e aposta em suas instalações físicas: dispõe de uma das mais sofisticadas redes internacionais de telecomunicações, e ela é toda de sua propriedade. Seu faturamento atingiu US$ 34 bilhões em 1998 e 36% dele veio de mercados relacionados com a Internet, não da telefonia convencional. Para 99, Sidgmore espera um porcentual superior a 70% do faturamento do grupo (incluindo a UUNET) vindo da Internet.
Ele também acredita que, pelo menos nos Estados Unidos, a telefonia doméstica de longa distância vai se tornar uma commodity, com os custos indo a pique e o patrimônio de telefonia local subindo em valor. "Os custos de transmissão também continuam a cair e vão chegar em breve próximo a zero", avisou. "Antes, 63% do nosso capital era investido em comutação e transmissão. Agora, esse porcentual caiu para 25% e será inferior a 10% em dois ou três anos." O grosso do investimento da MCI WorldCom, cerca de 50%, está hoje em suporte, atendimento e serviço ao cliente, enquanto outros 34% vão para custos de acesso. Uma informação sem dúvida valiosa para a Telefónica de São Paulo.
Sidgmore explicou que a empresa está apostando no que chama de "baratas de silício": a comunicação computador a computador. "Esse tipo de comunicação usa mais bandwidth do que qualquer outro tipo e ainda se reproduz como baratas", brincou, enumerando as inúmeras transações entre máquinas de fax, telefones celulares, PCs com modem, PDAs (Personal Digital Assistants, dispositivos de mão), backbones de Internet e webfones. "No ano 2000, uma pessoa poderá ter até cinco objetos baseados em IP pendurados em seu corpo", disse ele. As "baratas" de cada um - o celular, o computador pessoal, o PDA, até um relógio de pulso e um óculos computadorizados - vão falar com milhares de outras, e prover essa comunicação já é o grande negócio da MCI WorldCom. "Bill Gates acha que bandwidth deveria ser gratuito; nós achamos que software deveria ser gratuito", concluiu Sidgmore. No final, ao ser abordado pelo Estado, reagiu sorrindo: "Brasil? Como vai aquele problema do câmbio?" Depois disse que a empresa, que comprou a Embratel, "vai ganhar" com seus investimentos no País, mas não quis se estender - nem sobre o câmbio, nem sobre o investimento.

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