Exclusão de forças terrestres por Clinton é incentivo à resistência de Milosevic
Washington, 25 (AE) - As toneladas de bombas que os Estados Unidos jogaram sobre Hanói e Haifong por semanas seguidas durante a guerra do Vietnã (1964-1975) em nada diminuíram a determinação de Ho Chi Minh e de seus soldados e guerrilheiros nem impediram a humilhante derrota militar das forças americanas.
As chuvas de foguetes que Adolf Hitler fez cair sobre Londres e outros centros industriais da Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) para quebrar o espírito de luta do povo britânico produziram o efeito oposto.
E Saddam Hussein continua incólume no poder no Iraque, depois de ver seu país devastado por um dos maiores bombardeios aéreos de todos os tempos, na Guerra do Golfo (1991), e vários ataques de mísseis e aviões, desde então.
O impacto limitado do poder aéreo nos conflitos armados, quando não acompanhados por ofensivas terrestres, foi lembrado nas últimas 48 horas por políticos e diplomatas céticos quanto ao êxito do bombardeio que os Estados Unidos e seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) iniciaram contra as forças sérvias na última quarta-feira, para convencer o governo da antiga Iugoslávia a cessar os ataques contra a população de origem albanesa de Kosovo e a aceitar os termos de um acordo de concessão de autonomia à província meridional do país, concluído no palácio de Rambouillet, perto de Paris, na semana passada.
O próprio objetivo da missão deixou de ser claro tão logo as bombas começaram a cair. De um ação voltada para convencer o presidente Slobodan Milosevic a aceitar o acordo de paz, conforme explicação oficial oferecida antes do início do ataque, a operação passou a ter pelo menos dois novos propósitos depois que se ouviram as primeiras explosões nos arredores de Belgrado, a capital do que restou na antiga Iugoslávia, e em Kosovo: demonstrar a determinação da Otan em parar a agressão contra os kosovares, impedir Milosevic de ampliar seus ataques e infligir danos severos à máquina de guerra sérvia, para incapacitá-la a continuar a agressão.
"Encerrar essa tragédia é um imperativo moral", disse o presidente Bill Clinton, ao explicar a ordem de ataque num discurso aos americanos.
Por trás da súbita multiplicação dos motivos e objetivos do ataque há a mesma preocupação que leva os porta-vozes da Casa Branca e da Otan a não responder perguntas sobre sua possível duração. A idéia é deixar as opções o mais abertas possível e não se prender a nenhum critério de avaliação do sucesso da operação, preservando desta forma o espaço para cantar vitória quando e sob o argumento que for mais conveniente.
Mas nem no Pentágono se acredita na possibilidade de uma vitória rápida. E os críticos da administração começaram a prever o pior antes mesmo de terminar o primeiro dia da campanha aérea.
"Essa bombas não darão resultado", disse o senador John McCain, republicano de Arizona e ex-piloto da marinha que foi derrubado e passou anos como prisioneiro de guerra no antigo Vietnã do Norte. "É quase patético", afirmou ele ao New York Times. "Nós vamos apenas solidificar a determinação dos sérvios a resistir a um acordo de paz."
Para McCain, que pretende anunciar em breve sua candidatura à casa Branca, "será preciso derrubar as pontes e apagar as luzes de Belgrado para se ter uma chance remota de mudar a cabeça de Milosevic".
O senador teme que daqui em diante "o que vamos ter é a velha coisa do Vietnã, com pausas entre bombardeios, escalada, negociações e problemas". A previsão de McCain baseia-se no fato, provado em vários conflitos neste século, de que os bombardeios aéreos têm eficácia apenas quando são o prelúdio do desembarque de forças terrestres. Mas não há apoio para isso na opinião pública nem no Congresso. O próprio presidente Bill Clinton descartou a mobilização de tropas para salvar Kosovo no discurso que fez aos americanos na noite da quarta-feira.
Nos cálculos do ex-ministro britânico das relações exteriores, David Owen, que atuou como emissário das Nações Unidas na Bósnia
a exclusão a priori do envio de soldados feita pelo presidente americano complicou ainda mais a equação para os aliados.
Para Owen, ela deu a Milosevic um incentivo para aguentar o bombardeio e não fazer concessões, reconhecendo a autonomia de uma província que é internacionalmente reconhecida como parte do território da Sérvia.
Owen disse ao Times que é "completamente inútil" levar adiante uma campanha aérea se, de saída, já se avisa o inimigo que ele não deve esperar nem temer um desembarque de tropas. "A Otan parece pensar que pode lutar meia guerra", afirmou Owen. Os aliados "deveriam ter concentrado uma força na Macedônia, não uma força simbólica, mas uma força grande, de 60 mil soldados ou mais", acrescentou ele. "A única coisa que convencerá Milosevic é a perspectiva de que você varrerá as tropas dele de Kosovo e permanecerá lá para manter a paz".
O acordo negociado no palácio de Rambouillet, prevê a presença de uma força de 25 mil soldados da Otan em Kosovo, mas só depois que a paz for estabelecida - uma perspectiva que era remota antes do início do bombardeio aliado e agora pode ter se tornado uma impossibilidade pelo futuro previsível.





