No balanço do Censo 2000 – o maior levantamento demográfico da história do Brasil – que será divulgado em dezembro, deve ser anunciado que vivem no País 167 milhões de pessoas, de acordo com estimativas do IBGE, responsável pela pesquisa.
Nos nove dígitos do gigantesco número total, haverá velhos, jovens, crianças, bebês, pobres, ricos, remediados, miseráveis, homens, mulheres, brancos, amarelos, pardos, pretos, doutores, analfabetos, deficientes, pacientes em estado terminal, presidiários.
Eles serão contados a partir de um espaço físico considerado um domicílio. São 42 milhões de pontos espalhados pelo território brasileiro. Além de casas, apartamentos, hotéis, pensões e alojamentos, cabem dentro deste conceito marquises, praças públicas, viadutos e tendas. O rigor do maior órgão de pesquisa e estatística da América Latina, entretanto, se dobrou à indigência e não recenseará os mendigos andarilhos.
Simplesmente sob o risco de serem contados mais de uma vez, espalhados em cada localidade, pelas rodovias e estradas rurais brasileiras, não serão entrevistados e nem serão citados por ninguém. ‘‘A pesquisa é domiciliar. Nossa referência é o local de pernoite contumaz. Para contabilizar este pessoal, teríamos que fazer toda a contagem em um dia’’, explicou à Folha uma fonte da sede do IBGE, no Rio de Janeiro. Para esta mesma fonte, não há perda de fidelidade e credibilidade do levantamento, ‘‘pois é um número insignificante de pessoas’’.
O órgão não planeja realizar nenhum censo dos sem-teto e por enquanto não há nem mesmo um número aproximado sobre quantos brasileiros vivem nesta situação. ‘‘Eles não são objeto da pesquisa e não influem em dados socioeconômicos. Não há como transformar esta gente em um percentual da população.’’
Em Londrina, os indigentes sem endereço se concentram na área central, principalmente próximo ao Terminal Urbano, na Praça Rocha Pombo (entre as antigas estações rodoviária e ferroviária), nos arredores do Estádio Vitorino Gonçalves Dias e do atual terminal rodoviário. Na Vila Nova (bairro central), onde estão duas instituições de apoio aos sem-teto – o SOS e o Albergue Noturno – eles também fazem parte do cenário e perambulam pelas ruas Araguaia e Guaporé.
De acordo com a sociedade de consumo, vivem o pior dos mundos. Sem emprego, sem família, sem renda, sem relógios e compromisso, sem hábitos de higiene, sem comida e roupas, e quase sempre sofrendo com o alcoolismo e com a falta de lucidez, muitos deles não fazem questão de recordar a época em que eram recenseáveis e que poderiam influenciar os indicadores socioeconômicos.
Eles nem sabem que existem 200 mil pesquisadores do IBGE transitando com 100 milhões de questionários que, se fossem destinados à eles, ficariam praticamente em branco.
Quando a reportagem mostra os questionários que estão sendo usados no levantamento, Benedito Soares, 53 anos, se espanta. ‘‘Tudo isso é para responder? Isto é coisa pra bacana, com tanta frescura’’, resume o ex-frentista que, de tanto beber, perdeu o emprego, o respeito da família e a auto-estima. Há um ano nas ruas de Londrina, cidade onde nasceu e cresceu, Soares perdeu a esperança e se irrita quando perguntado sobre o que quer do futuro.
Depois de um silêncio de protesto, diz que quer continuar sua vida, andando pelas avenidas, pedindo esmolas, contando com a ajuda de entidades assistenciais para, as sempre presentes, duas mudas de roupas (nunca mais que isso) e o sopão da noite. Sobre a mulher e os dois filhos – um auxiliar de escritório de 33 anos e um metalúrgico de 29 – pouco sabe e parece não se interessar mais pela ex-família. Não quis dizer onde moram, nem o porquê do tratamento indiferente que recebe.
No censo de 1991, ‘‘não fez feio no questionário’’. Sua casa no Jardim Ideal era própria, tinha aparelho de TV e geladeira. Ganhava dois salários mínimos em um posto de combustível que o demitiu por trabalhar constantemente embriagado. ‘‘Acho que é minha idade. Mas, moço, procurei emprego em toda a parte e diziam que não tinha vaga. Acabei desistindo’’, conta.
Na praça da rodoviária, Soares estava conversando com um rapaz, presumíveis 25 anos, com olhos vermelhos, mas carregando certa vitalidade. No rosto, um sorriso que é raríssimo no interlocutor. Trocam informações sobre outros sem-teto e sobre lugares ‘‘bons de esmola’’. O rapaz fala que não pode aparecer no jornal, que a família pode descobrir que está ali. O jovem mendigo também não sabe nada sobre o censo, não se incomoda de ser ignorado na contagem. ‘‘Não ia ajudar em nada mesmo’’, avalia.
Nos arredores do VGD, a reportagem aborda Aparecido Lino, 54 anos. Antes de mais nada, ele pede esmola. Os olhos embriagados observam o questionário e confessa: ‘‘Moço não voto aqui não, mas me dá um dinheirinho, tô precisando.’’ Confundir a equipe de reportagem com cabos eleitorais é o primeiro indício que o ex-lavrador de mãos calejadas e trêmulas não sabe nem o que seja um recenseamento ou jornalismo.
‘‘Rodo por aí. Congonhinhas, Nova Fátima, Assaí, Santa Cecília do Pavão, Ibaiti. Faz dois anos que fico mais em Londrina, mas de vez em quando volto pra lá. Quero trabalhar na roça, mas não tenho saúde. Ninguém me dá serviço’’, relata.
Em 1991, morava na zona rural de São Jerônimo da Serra. Não tinha TV, nem rádio. As três filhas ainda não tinham ido para Sorocaba trabalhar. A mulher não havia morrido. Depois veio tudo isso, que não vai constar em nenhum questionário do IBGE. Se deprimiu. Passou a beber mais do que as doses generosas que já consumia quando chegava cansado da lida na lavoura. Foi para a cidade, perdeu contato com as filhas e o pouco da dignidade.
Hoje, anda com um saco nas costas, provocando piedade para conseguir comer e para manter-se em pé. Para beber e poder dormir pesado em garagens e conversar um pouco sozinho para espantar a solidão e a diferença do mundo a sua volta. ‘‘Não roubo, não brigo, só peço uns trocados para não morrer de fome’’, resume, usando o mínimo de orgulho que lhe restou.

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