EXCESSO DE PESO - Brasileiros estão cada vez mais gordos
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sexta-feira, 17 de dezembro de 2004
Luciana Nunes Leal eNilson Brandão JuniorAgência Estado 
Rio - Nas três últimas décadas o Brasil conseguiu reduzir à metade o índice de desnutrição entre os adultos, mas ao mesmo tempo viveu um fenômeno preocupante: os brasileiros estão cada vez mais gordos. Em 1975, 23 em cada cem pessoas estavam acima do peso ideal, taxa que subiu para 40 em 2003. O País tem 38,8 milhões de pessoas adultas com excesso de peso, das quais 10,5 milhões são obesas.
A proporção de obesos mais que dobrou em três décadas, de 5,3% para 11,1%. Já a desnutrição caiu de 8,3% para 4% na população adulta. Em 2003, havia 3,8 milhões de adultos desnutridos - comem menos que o necessário para uma vida saudável e estão abaixo do peso recomendável.
Há 30 anos, havia mais desnutridos do que obesos. Hoje ocorre o contrário. Os dados são da segunda parte da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), divulgada hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Erstatística (IBGE). Desde 1975 não se fazia uma pesquisa tão detalhada sobre a alimentação do brasileiro.
''A pesquisa mostra pela primeira vez com toda clareza que hoje existe um problema mais grave do que a desnutrição: a obesidade. Temos por tradição o problema da desnutrição e é difícil entender isso. A obesidade não é um problema da opulência, está em todas as classes sociais. A epidemia da obesidade será cada vez mais dos pobres e uma questão de saúde pública'', diz o diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Sa© úde, Reinaldo Guimarães, referindo-se ao paradoxo do excesso de obesos em um País onde o lema social do governo é Fome Zero.
Os desnutridos, lembra Guimarães, não são necessariamente homens e mulheres que passam fome por falta de renda. A pesquisa mostra que nas classes de maior rendimento também existe, embora menor, uma incidência de desnutrição, causada por dietas não balanceadas ou por doenças.
''Essas dietas malucas para emagrecer podem levar a níveis de desnutrição'', afirma a pesquisadora do IBGE Lilibeth Roballo Ferreira. A redução na desnutrição, diz ela, foi causada por uma combinação de mais renda, mais educação, mais atenção à saúde, mais oferta de alimentos. ''A renda pode não ser o fator determinante, mas tudo que envolve melhores condições de vida vai influenciar na queda da desnutrição.''
Se você não resiste a bolos, hambúrgueres e refrigerantes, está acima do peso e acha que esta é apenas mais uma estatística, é bom prestar atenção no alerta de um dos maiores especialistas em nutrição do País, o médico Carlos Augusto Monteiro, professor da USP e consultor do Ministério da Saúde. ''A obesidade é o segundo fator de mortes e doenças no País. Só perde para o consumo de álcool. Tem muito mais peso como fator de mortalidade do que a desnutrição. A obesidade aumenta doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer, porque o tecido gorduroso produz hormônios que aumentam a possibilidade de câncer de mama, de intestino. A obesidade provoca ainda doenças que não matam, como dores nas costas, além das questões psicossociais.''
A má alimentação, com ingestão em excesso de açúcares e gordura, a comida industrializada, o grande aumento das refeições feitas fora de casa e a falta de exercícios físicos são fatores determinantes para o aumento da obesidade no País. Em contraposição, faltam frutas e hortaliças na mesa do brasileiro.
Para saber se uma pessoa está no peso ideal, o caminho é descobrir o Índice de Massa Corporal (IMC), um cálculo de padrão internacional que vale para todos os adultos, independentemente de sexo e idade. O índice é calculado dividindo o peso pela altura ao quadrado. Uma classificação da OMS indica se o indivíduo está abaixo, acima, muito acima ou dentro do peso ideal.
Embora o País ainda tenha alta proporção de pobres, os números mostram que foi possível reduzir o número de pessoas que se enquadram nos padrões internacionais de desnutrição de adultos. ''A pobreza do Brasil não se manifesta necessariamente na fome, mas em muitos aspectos da desigualdade social'', diz o presidente do IBGE, Eduardo Pereira Nunes.
O índice atual de 4% tira o Brasil dos países com população adulta exposta à desnutrição, pois a Organização Mundial de Saúde considera aceitável a proporção de 3% a 5% de pessoas abaixo do peso ideal.
O Nordeste rural, porém, apresenta índice de 5,6%. Entre as mulheres, ultrapassa os 6%.''A deficiência de calorias vem diminuindo no País e está praticamente restrita às áreas rurais da população do Nordeste, o que torna o problema mais fácil de ser eliminado. A mensagem destes números é que os programas com objetivo de reduzir a fome têm que ser muito direcionados'', diz o médico Carlos Monteiro.
A redução mais significativa da desnutrição aconteceu no fim dos anos 70 e nos anos 80. Na década de 90, a queda foi pequena.
A POF investiga apenas o consumo de alimentos nos domicílios, mas os especialistas do IBGE apontam a refeição fora de casa como séria agravante para o sobrepeso e a obesidade. Comer fora é um hábito principalmente na área urbana e entre as famílias que têm renda mais alta, dois universos onde são registradas as maiores taxas de obesidade. Para fazer a POF, os pesquisadores do IBGE acompanharam durante uma semana cada família pesquisada. A pesquisa foi feita em 48.470 domicílios de todo o País, entre junho de 2002 e julho de 2003.


